Minissérie “The ABC murders” não faz jus à obra de Agatha Christie



Adaptar um livro, ou seja, traduzir todas as minúcias de uma obra para qualquer roteiro que seja, é tarefa ingrata. Mesmo assim, existem exemplos felizes e outros menos afortunados deste gênero. Em cartaz na Globoplay, The ABC murders, com direção do brasileiro Alex Gabassi, infelizmente entra na segunda categoria.


Baseada em Os crimes ABC, de Agatha Christie, a minissérie de três episódios não honra o volume em questão, mesmo possuindo enredo recheado de elementos que os fãs da autora adoram: assassinatos elaborados, mistérios que viajam de trem e o maior deles, Hercule Poirot. O programa apresenta a trama de diferentes execuções seguindo disposição alfabética. O criminoso antecipa seus planos obscuros, em cartas, a um dos mais famosos investigadores do mundo, nosso querido detetive, assinando sempre com as primeiras letras do abecedário.


Essa mesma ordem também aparece nos nomes das vítimas, nas cidades inglesas onde elas aparecem, Andover, Bexhill-on-Sea, Churston, e ainda relacionam-se aos guias ferroviários tipo ABC sempre deixados ao lado dos corpos. Em termos de enredo, livro e série andam de mãos dadas. Entretanto, o diabo está nos detalhes.





Para começar, confesso que admiro algumas intenções. A exemplo desta. Ambientada em 1933, a narrativa relaciona as turbulências políticas do período, por exemplo um levante nacionalista contra estrangeiros, algo dispensado na obra publicada em 1936. O tema volta a dar as caras durante toda a trama, fazendo a relação entre passado e presente ficar oportunamente bem clara – a minissérie foi exibida pela BBC One em dezembro de 2018, ainda em meio ao imbróglio de oficialização do Brexit (o movimento anti-imigração é uma das discussões relacionadas ao assunto). A sacada é raro ponto positivo no geral.


O grande pecado de The ABC murders é um clima demasiadamente soturno, pesado, que se sobrepõe ao suspense do enredo. Essa atmosfera não combina em nada com a bibliografia de Agatha Christie, especialista em tratar os casos mais sangrentos de maneira até pueril. Talvez a produção tenha caído na tentação de modernizar demais a história, assim como o fez Kenneth Branagh em sua recente adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente, acometida ainda por um excesso de pirotecnia dispensável.


Neste mesmo tópico, causam desconforto alguns toques vulgares nada dignos do universo retratado pela elegante inglesa. Insinuações sexuais e palavrões sem propósito, um crime envolto em urina e até uma piadinha com hemorroidas acabam empobrecendo os capítulos. Outro ponto também não se revela bem sucedido, a desconstrução dos tipos literários. Hercule Poirot ganha tons sombrios com a escalação de John Malkovich, notadamente diferente dos tipos meio bonachões, até cômicos, aos quais estávamos acostumados em outras versões, por exemplo Albert Finney, Peter Ustinov e David Suchet.





Sarah Phelps, roteirista da empreitada e de outras adaptações da autora para a TV (Testemunha de acusação, E não sobrou nenhum, O cavalo amarelo), propõe ainda uma licença poética absolutamente inverossímil: a decadência do detetive belga, mostrado como uma alma atormentada, cheia de segredos, desacreditada até mesmo pela Scotland Yard. Por mais admirável que seja a ousadia derivada disto, a criação de uma história pregressa com virada surpreendente para Poirot, isso distancia-o ainda mais da figura a quem conhecemos na literatura como ídolo nacional, dono de senso de humor peculiar.


Contribui ainda para o malogro da experiência um grande desvirtuamento dos outros personagens, que o diga o Crome de Rupert Grint, praticamente um Lucas Silva e Silva vestido de adulto, Thora Grey (Freya Mavor) em versão vilã de novela mexicana ou ainda uma Megan Barnard (Bronwyn James) mais passada do que roupa de lavanderia. Isso sem mencionar o sumiço do narrador original, o inspetor Hastings, recorrente no acervo da escritora.


The ABC murders pode até agradar quem não leu o livro. Mas, para os fãs de Agatha Christie, provavelmente será visto como uma frustrada tentativa de transformar Downton Abbey em Seven.






Crédito das imagens: Provas de Contacto, Pinterest e NiT.

E todo aquele jazz…



Hollywood, sempre viciada em si mesma, revisita a própria história em incontáveis filmes, documentários e séries de TV. A nova onda são os recortes temporais, ou seja, ao invés de contar tudo desde o princípio, por exemplo a cinebiografia de Charles Chaplin, escolhe-se um trecho específico da vida de interpretes ou, mais em alta ainda, os bastidores de produções clássicas.


Só nos últimos anos tivemos Hitchcock, sobre a realização de Psicose, Grace de Mônaco, cujo tema é a princesa-atriz nos anos 1960, e ainda Feud, mostrando Bette Davis e Joan Crawford, nas versões de Susan Sarandon e Jessica Lange, em duelo antológico por trás das câmeras de O que terá acontecido a Baby Jane?, alguns destes devidamente resenhados ou citados no Loz Engelis.


Me deparei com mais um caso para esta já recheada pasta de evidências. Fosse/Verdon, produção da FX em oito episódios, chamou minha atenção por vários motivos, elenco-os aqui.





Ato I. Com currículo praticamente em branco no papel de diretor, o ator e coreógrafo Bob Fosse faz sua estreia oficial na função em Charity, meu amor (1969).


A esposa dele, Gwen Verdon, grande nome dos musicais da Broadway, ajuda nas danças, assumindo o papel de musa inspiradora e, principalmente, suportando seu temperamento exigente. Quando o cineasta começa a produção do novo filme, Cabaret, o casamento desanda.







Começou aí minha surpresa. Ao contrário do que sugere o título, a narrativa inicia-se quando a parceria entre os dois arruína-se do ponto de vista emocional. De cara contamos ainda com um dos pontos altos da produção, a trajetória bem contada, sem rodeios, pontuada pela reconstituição de época extremamente real, sem clichês, além das cenas de dança belissimamente coreografadas.


Ato II. Separado, o ex-casal percebe, aos poucos, que a força de um depende da do outro. O telespectador descobre aos poucos dicas do “futuro” com cards misteriosos. Também fazem parte flashbacks explicativos e nada convencionais.


Bob colhe os louros por Cabaret, o especial para a TV Liza with a Z e a peça Pippin, enquanto Gwen, já considerada ultrapassada pelos padrões dos anos 1970, luta para levar Chicago aos palcos (anos depois a produção ganhou as telas de cinema, virou meu musical favorito).







Nessa fase, o drama fica centrado nos vícios de Fosse, em sexo, drogas e cigarros, além da destruição física e mental do diretor. Brilha aí, principalmente, o talento dos intérpretes. Sam Rockwell playing some Agostinho Carrara realness constrói um tipo genial, ao mesmo tempo odioso, com maestria.


Mas, para mim, não tem para ninguém: o projeto pertence a Michelle Williams. Longe da TV desde Dawson’s Creek, que a consagrou duas décadas atrás, ela volta à telinha com carreira consolidada no cinema e maturidade suficiente para aguentar o rojão de assumir os sapatos de Gwen Verdon. Mereceu todos os prêmios (além de ter tido um dos discursos de agradecimento mais contundentes que já vi).


A minissérie foi desenvolvida por Steven Levenson e Thomas Kail, com produção executiva dos astros da empreitada, além de Joel Fields, de The americans.




Ato III. Sofrendo cada um à sua maneira com o envelhecimento, este grandes nomes levam a vida – ele com a autobiográfica fita All that jazz, ela no revival de Charity, meu amor para o teatro. Mesmo separados há anos, nunca se divorciaram e continuaram amigos até o fim.




Produzido também por Nicole Fosse, filha única do casal, à época da trama retratada ainda adolescente, Fosse/Verdon é uma sessão de terapia conduzida sem maniqueísmos. E imperdível aos fãs de cinema. Quando as cortinas se fecham, metaforicamente, mesmo com sabor agridoce na boca, senti que tinha assistido a um espetáculo.










Crédito das imagens: AdoroCinema, G1 e Washington Post.

E se “Avenida Brasil” fosse uma série gringa?

Em mais de uma ocasião o Loz Engelis apresentou a Versão brasileira, seção especializada em planejar elencos brasucas para os mais famosos programas internacionais (aqui os de Homeland, Game of thrones, Big little lies). Mas e o contrário, será que funciona?


Nessa brincadeira, transformei Avenida Brasil num seriado estrangeiro estrelando grandes nomes da TV americana. Apresento o resultado na semana em que a novela chega à sua reta final com grandes emoções no Vale a pena ver de novo.


Once again, ladies and gentlemen, #OiOiOi.







Brazil Avenue (Avenida Brasil)
Showrunner: Ryan Murphy (Glee, American horror story, American crime story, Feud)


Locação: Flórida, EUA


Sinopse: A imigração brasileira ao longo dos últimos 20 anos propiciou que a pequena cidade de Divine, na Florida, virasse um dos grandes polos do futebol nos Estados Unidos. É lá que Thunder, ex-jogador da seleção americana, vive com a esposa, Carly.


A vida da família, que mora junta em uma mansão de gosto duvidoso ao estilo Real Housewives, muda com a chegada de Nora, contratada para ser chef na casa deles. É que a jovem planeja se vingar da madrasta que arruinou a vida dela 20 anos antes.


Elenco:



Carminha (Adriana Esteves) – Carly (Jennifer Aniston, de Friends e The morning show)





Tufão (Murilo Benício) – Thunder (Jason Bateman, de Arrested development e Ozark)





Nina (Débora Falabella) – Nora (Ginnifer Goodwin, de Big love e Once upon a time)





Jorginho (Cauã Reymond) – Georgie (Miguel Ángel Silvestre, de Sense8)





Muricy (Eliane Giardini) – Mrs. C (Allison Janney, de Mom)





Leleco (Marcos Caruso) – Big Leo (Terry O’Quinn, de Lost)





Ivana (Leticia Isnard) – Ivanka (Katherine Heigl, de Grey’s anatomy)





Max (Marcello Novaes) – Max (Woody Harrelson, de True detective)





Adauto (Juliano Cazarré) – Antonio (Wilmer Valderrama, de That 70’s show)





Ágatha (Karol Lannes) – Maggie (Madison De La Garza, de Desperate housewives)





Zezé (Cacau Protásio) – Gigi (Adrienne C. Moore, de Orange is the new black)





Janaína (Cláudia Missura) – Jenny (Rosemarie DeWitt, de United States of Tara e Little fires everywhere)




Já tem até tema, ouçam só.







Crédito das imagens: Arte de Edson Caldeira, Gerusa Florencio, E! News, MdeMulher, Observer, Observatório da TV, ThePlace2.ru, Pinterest, Globoplay, IMDb, Gshow, Vix, O Fuxico, Entertainment Weekly, UOL TV e Famosos e TV Insider.