O amor nos tempos do cólera



Se Pat Benatar tiver razão e o amor for mesmo um campo de batalha, certamente Sade estará no front pronta para defender os apaixonados. Você pode achá-la brega, ultrapassada ou impregnada por solos demodê de saxofone, mas você não viu o show que eu vi, mermão. Na primeira visita ao Brasil em quase TRINTA ANOS de carreira, a banda (sim, Sade é uma banda), desembarcou aqui em Brasília, hipnotizando o público com uma apresentação impecável.








Minha saga para assistir a esse show começou quando foram divulgadas as datas para o Brasil. Contabilizei o tanto de dinheiro teria de gastar para ver Sade no eixo Rio-São Paulo e a situação não foi nada animadora. Felizmente, pensei eu, pouco tempo depois Brasília foi incluída nesse circuito. Ledo engano, Leda Nagle.


Sade chegaria a Brasília na estrutura porca do Ginásio Nilson Nelson e com ingressos a preços pra lá de exorbitantes. A pista premium, a VÍ-ÁI-PÍ do lugar, custaria em valor inteiro mais de mil reais. Fiquei puto, disse que não ia, mas quando chegou perto da apresentação eu consegui socorro em uma promoção relâmpago do Peixe Urbano e comprei um ingresso para a área povão por 105 verdinhas (mais barato até do que a meia entrada deste que era o setor mais em conta). Ô dinheiro bem gasto!


Com pouquíssimos minutos de atraso, Helen/Sade Adu, a cantora à frente do fenômeno, entrou no palco mostrando a que veio. Com cinquenta e dois anos na cara, ela chega triunfante num elevador e esfrega seu corpaço incrível na cara da sociedade, cantando com uma voz tão aveludada que parecia até mentira. O cenário da turnê parece simples à primeira vista, mas vai aos poucos se revelando sofisticado, com belíssimas projeções ao fundo, efeitos especiais em 3D e cenários deslumbrantes. É tanto adjetivo que daqui a pouco eu vou precisar de um dicionário.



Soldier of love, música que abriu o show


Há dez anos sumidos do mercado (desde Lovers rock, de 2001), eles não se fizeram de pedantes para promover o novo álbum, Soldier of love, cantando apenas temas novos. O setlist Antena 1 comeu solto com quase todos os hits das antigas como Your love is king, Smooth operator, The sweetest taboo, No ordinary love, entre outros, fazendo a alegria de velhos e novos fãs, além daqueles que só os conheciam por estes singles.





Os telões de boa resolução deram uma força a quem estava um pouco distante. A presença de palco da banda também é de arrepiar. Discretíssima e low profile, Sade interagiu pouco com o público, mas nem por isso deixou escapar a emoção. Dava pra ver na expressão dela o quanto ela estava feliz com mais uma prova latina de calor humano. Ou então eu exagerei na Ice e ela é falsa bagarai (o que duvido).





Overwhelmed com toda essa experiência catártica, não me aguentei e finalmente me debulhei em lágrimas na hora de By your side. Toda a experiência visual combinada a um repertório bem escolhido, direção de arte precisa e ousada harmonia musical bateram fundo. Saí emocionado deste que com certeza estará na lista de um dos melhores shows que eu já fui na vida.




Conheça mais:



Your love is king, de Diamond life (1983)



The sweetest taboo, de Promise (1985)



Paradise, de Stronger than pride (1988)



Cherish the day, de Love deluxe (1992)



By your side, de Lovers rock (2001)




Ao vivo:



Smooth operator, de Diamond life, na Love Deluxe Tour (1993)



Is it a crime, de Promise, na Lovers live (2002)



Love is found, da coletânea The Ultimate Collection (2011), na Sade Live, turnê que passou por Brasília

A fantástica fábrica de doces da rainha



Eu sou suspeito, aliás, suspeitíssimo para falar de Madonna. Quem me conhece (e até mesmo quem mal ouviu falar de mim nessa vida), sabe da minha paixão pela ÚNICA rainha de verdade da música pop. Sempre me policio para não bater na mesma tecla e acabar superexpondo essa minha admiração, disparando comentários sobre qualquer coisa que venha dela.


Porém, quando acho um gancho, como o lançamento do CD/DVD da Sticky and Sweet Tour, por exemplo, ninguém me segura. A sorte é que não sou xiita e, por mais que admire o trabalho da diva, consigo enxergar seus defeitos e limitações. Fica o aviso, pois este é um post APAIXONADO sobre Madonna. E a paixão, como todos sabem, tem vários caminhos possíveis. Deixando de lado o lero-lero, vem pra cá, meu bem, viajar no doce universo deste ícone do pop.





Posso falar de cadeira sobre esse lançamento, pois, MENINOS, EU VI! Pela primeira vez em tantos anos de admiração, consegui (a duras penas financeiras), assistir a dois shows de Madonna. A primeira etapa da Sticky and Sweet Tour acabava por aqui, em dezembro de 2008, com cinco shows em território brazuca.


Um pouco antes, Madonna visitou a América Latina, incluindo sua amada Argentina, onde filmou parte de Evita (1996), no roteiro: foi de terras portenhas que ela tirou o registro oficial da apresentação. Imaginem, então, que as emoções me confundem, e o que pude assistir na humilde tela de TV em casa se mistura a catarse do show ao vivo, temperada por suor, lágrimas e chuvas torrenciais.


Junto do DVD, Madonna presenteia os fãs com o registro ao vivo da apresentação em áudio e recheia as bolachas com alguns extras interessantes (mostrando, inclusive, sua passagem pelo Brasil).





Baseado em seu lançamento mais recente, Hard candy (2008), a Sticky and Sweet Tour faz jus ao nome: é doce e grudenta. Madonna, pouco saudosista que é, surpreende ao aliar muitos sucessos antigos aos temas mornos do disco em questão.


A rainha, sentada em um trono como lhe é de direito, começa o show com Candy shop: é o início do bloco Pimp. Em sequência, Beat goes on, com vocais de Pharell e Kanye West, Human nature, com participação de Britney Spears no telão, e um mash-up de Vogue e 4 minutes.


As luzes se apagam e uma Madonna visivelmente plastificada entra no ringue em telões gigantescos de LED. É o remix de Die another day (a única música do renegado American life a entrar na set list).





A suposta “sofrida escalada ao estrelado”, que Madonna enfrentou em Nova York no início dos anos 1980, dá início ao segundo bloco. Vestida de garotinha (Não, Tia, não faça mais isso), ela reverencia a década perdida com Into the groove, sucesso de 1985. Grafites de Keith Harring completam a homenagem.


Depois é a vez de Heartbeat e Borderline, essa última, um clássico, totalmente deturpada com a fracassada tentativa de Madonna em posar de rock star (Porra, Tia. De novo?).





A próxima faixa, She’s not me, é minha xodó. Nas telas, imagens icônicas dos quase 30 anos de carreira da musa seguem o ritmo da música (vídeo abaixo).


De óculos de coração e casaco com seu nome bordado, ela enfrenta quatro drag queens vestidas como ela em diferentes fases: Material girl, Like a virgin, Open your heart e Express yourself. Depois de um ataque epilético, Madonna, em êxtase, embala uma nova versão de Music.




O próximo bloco, Gypsy, tranquiliza a audiência com um medley de Rain, da rainha M, com Here it comes the rain again, do Eurythmics. Em cima de um piano, Madonna é cercada por uma estrutura de telões que reproduzem imagens de chuva em Devil wouldn’t recognize you.


Depois é a vez de uma pegada latina, outra marca registrada de Madge em suas turnês: Spanish lesson e La isla bonita. Intimista, pega no violão em Miles away, na belíssima You must love me e em Don’t cry for me, Argentina, um presente dado ao país que sediou o show do DVD. Inebriada por seu recente engajamento político, o vídeo que abre o quarto bloco, intitulado Get stupid, mostra Madonna reclamando dos mandos e desmandos de figurões do mundo, enaltece personalidades politicamente corretas (Viva Oprah!) e critica o aquecimento global e outros temas pertinentes.


É hora de apertar o flash forward. Após este momento importante (Zzzz), a Tia chega vestida de Jaspion em versão anime cibernético, com o hit 4 minutes. Logo embala Like a prayer com Feels like home, do Meck com participação de Dino. Na sequência, tediosas versões de Ray of light e Hung up. Give it 2 me fecha o jogo, Game over e acabou.




Em retrospecto, mesmo sendo a única das turnês da diva que eu tive o prazer de conferir ao vivo, a Sticky and Sweet deixa a desejar. Não tem o frescor da Virgin Tour (1985), a capacidade vocal da Who’s that girl (1987), a polêmica da Blonde Ambition (1990) ou a criatividade da Confessions (2006).


Traçando um paralelo com o nome da turnê, parece que Madonna mascou suas outras empreitadas nos palcos e, como aquele chiclete que perdeu o gosto, tacou no açúcar e botou na geladeira. Falta a contestação autêntica, a polêmica marota e a graça em fazer algo menos ensaiado e mais do coração. Tirando isso, alguns outros aspectos positivos são inegáveis, como a incrível produção, o preparo físico da diva e um conceito de show que cumpre seus propósitos de entreter, pintando e bordando com o pop e, por que não?, com a própria imagem de Madonna. Falem o que quiserem falar, eu não vou bater neurose, mas, acreditem – nobody does it better than her.







MADONNA – STICKY AND SWEET TOUR
Madonna. DVD do show, gravado em Buenos Aires (Argentina) + CD com 12 faixas ao vivo. Warner.
http://www.madonna.com
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PS: Se você tem algum dinheiro sobrando, vale a pena adquirir o livro da turnê (não confundir com o tour book). São 308 páginas de fotos feitas por Guy Oseary, empresário e braço direito da rainha, durante todo o percurso na estrada. Guy já havia registrado a Confessions Tour, em volume editado em 2008.





PS 2: O elenco de Glee, a série mais bombada da temporada nos EUA, se vestiu de Madonna para um editorial da revista TV Guide. A sessão de fotos serve como prévia para os fãs do programa, que terá um episódio só com músicas de Madonna em breve. O projeto, aliás, vai virar um EP com sete faixas.





Eterna mutante

Classificar Rita Lee como a ovelha negra da música brasileira, referência à música homônima de 1975, já virou clichê mais batido do que bunda de sapo. Achar outras adjetivos para a tiazona do rock ‘n’ roll brazuca não é difícil. Poderíamos classificá-la como uma mistura de David Bowie, Mick Jagger, Caetano Veloso, Serguei e até mesmo Madonna, por exemplo. Mas ela dispensa apresentações e principalmente comparações. O que ninguém pode discutir é que Rita Lee sintetiza rebeldia, estilo e muito talento, tudo isso reunido em mais de 40 anos de estrada.





Santa Rita de Sampa, the one and only, estará em Brasília no próximo dia 12 de dezembro, sábado, em apresentação única no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. O show faz parte do mais recente lançamento de Rita, o projeto Pic Nic, cujo CD e DVD que registram a empreitada levam a assinatura do canal a cabo Multishow. A direção musical é do maridão e guitarrista, Roberto de Carvalho. Além dele, o filho de Rita, Beto Lee, também faz parte da banda.





Sem medo de remexer o baú do passado e subvertê-lo como bem quer, Rita Lee investe em um repertório que mescla diversas fases de sua carreira em roupagem completamente nova. Bwana vira Obama, em homenagem ao novo dono do mundo, Barack, e I wanna hold your hand, dos Beatles, ganha versão meio pé de serra intitulada O bode e a cabra. Além disso, hits como Doce vampiro, Baby, da época d’Os Mutantes e, obviamente, Ovelha negra, prometem fazer o público se arrepiar.





Meu caso de amor com Rita Lee começou por acaso e um pouquinho tarde, diga-se de passagem. Ela era uma daquelas artistas pela qual eu nutria uma afeição gratuita, mas sempre a escutava de canto de ouvido, por engano, um elevador aqui, uma zapeada de canal acolá. Um belo dia resolvi mudar. Sim, também tenho a mania de me expressar por letras de música.

Meio de caso pensado e cheio de segundas intenções, presenteei minha mãe com um box de DVDs sobre a vida de Rita chamado Biograffiti. Em três volumes, o DVD mistura entrevistas (algo raro, já que Rita Lee só conversa com a imprensa via e-mail para evitar possíveis maus entendidos de interpretação), imagens de arquivo e registros ao vivo de um show de 2006. Pitando um cigarro atrás do outro, ela esbanja atitude discorrendo sobre vários assuntos, entre eles a trajetória com Os Mutantes nas décadas de 1960 e 1970; o período hardore de entorpecentes e muita birita e a inevitável dobradinha envelhecer/amadurecer.





Movido pela curiosidade, recorri ao livro Rita Lee mora ao lado, espécie de biografia romanceada da cantora escrita por Henrique Bartsch. Na obra, uma vizinha imaginária de Rita, Bárbara Farniente, conta sua história de vida permeada sempre pela presença do furacão ruivo da música brasileira. Os fatos são reais com diversas pitadas de especulação e achismos. Fica a vontade de um dia ler e reler as histórias reais da verdadeira Rita. Tiazona, agora vovó da Ziza, se um dia passares por aqui em seu surfe internético, fica a dica, ok?





Encerrando a transmissão, deixo vocês, leitores, com o registro de Lança perfume retirado do DVD Rita Lee Jones, especial da Globo do início dos anos 1980. Tá na minha wish list de Natal, viu? Aguardo.





SHOW RITA LEE
Dia 12 de dezembro, sábado, às 22h30, no Centro de Convenções Ulysses Guimarães. Vendas na Central de Ingressos do Brasília Shopping. Valores: VIP, R$ 200 e R$ 100 (meia); VIP lateral, R$ 180 e R$ 90 (meia); Especial, R$ 160 e R$ 80 (meia) e Superior/Mezanino, R$ 120 e R$ 60 (meia). IMPORTANTE: Além de assistir o show da grande dama do rock brazuca, você também pode fazer parte de uma ação social. Ao adquirir um bilhete da Apae Noel, projeto da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, por módicos R$ 5, você ganha 50% de desconto (valor de inteira) para o show. Serão sorteados três carros, um notebook e uma TV. O bilhete da Apae Noel poderá ser adquirido também na Central de Ingressos do Brasília Shopping.


BIOGRAFFITI
Box com três DVDs sobre a trajetória de Rita Lee. Biscoito fino. Também vendido separadamente nos volumes Ovelha negra, Cor de rosa choque e Baila comigo.


RITA LEE MORA AO LADO
De Henrique Bartsch (2006). 1ª Edição. Panda Books. 256 páginas.


RITA LEE – MULTISHOW AO VIVO
DVD com registro do show Pic Nic. 88 minutos. Biscoito Fino.
CD com 20 faixas ao vivo. Biscoito fino.


RITA LEE JONES
DVD da série Grandes nomes Rede Globo. Trama.