Drugstore – Livros para o isolamento social



Tava faltando esse assunto na série da quarentena, então selecionei cinco obras literárias para passar o tempo. Tem suspense de ficar grudado, história de vida, romance, jornalismo e até mesmo um pouquinho de tudo o que já aconteceu no mundo. Aproveitem. Não percam também os posts sobre séries e músicas.







Morte no Nilo
Agatha Christie
HarperCollins
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Linnet Ridgeway é bonita, rica e bem sucedida. Ela também roubou o namorado da melhor amiga, casou-se com ele e embarcou num cruzeiro luxuoso pelo Egito ao lado do marido. Não contava, entretanto, que seria assassinada à bordo, dando origem a uma investigação do detetive belga Hercule Poirot, coincidentemente outro passageiro deste diabólico passeio pelo rio Nilo.


Primeiro livro “adulto” que li, também foi minha estreia com Agatha Christie. Selou, de cara, a paixão pela obra da autora, minha preferida. Este também é meu predileto dela. Desligue o celular e mergulhe na história. Você provavelmente não vai conseguir desgrudar, tô te falando.


Quando acabar, recomendo o filme de 1978 com Peter Ustinov, Bette Davis, Maggie Smith e grande elenco (Kenneth Branagh, que recentemente dirigiu e estrelou outra versão de Assassinato no Expresso do Oriente, mais um clássico de Agatha, tem engatilhada uma nova adaptação de Morte no Nilo para breve).







Rita Lee – Uma autobiografia
Rita Lee
Globo Livros
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A cantora brasileira que eu mais curto conta em detalhes toda sua vida profissional e pessoal, estas recheadas de causos para lá de interessantes.


Escrita pela própria em esquema “fluxo de consciência”, a autobiografia percorre os mais diversos assuntos, família, Os Mutantes, drogas, música, desafetos, e por aí vai, tudo em linguagem leve e com o humor característico consagrado por nossa rainha do rock. Ao longo do livro, um personagem, tipo aquele Clipart do Word, trazendo novos fatos ao leitor.







A sangue frio
Truman Capote
Companhia das Letras
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Na obra inaugural do que conhecemos hoje como jornalismo literário o escritor Truman Capote investiga o assassinato de uma família americana do Kansas no fim da década de 1950. Como bom repórter que é, dá voz aos dois lados, mostrando ao público relato que alterna a história das vítimas com a dos assassinos.


A forma como isso é contado foi o que mais me fascinou quando li a obra, ainda nos tempos de faculdade. Na primeira parte, conhecemos em detalhes o último dia dos Clutter. Em seguida somos levados pelo passado dos criminosos Richard Hickock e Perry Smith, além de pela investigação, uma espécie de narrativa em vários tempos distintos. Parece coisa de filme, né? Pois virou. Capote, de 2005, mostra um pouco da criação de A sangue frio (também adaptado para o cinema décadas antes).







Moça com brinco de pérola
Tracy Chevalier
Bertrand Brasil
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Não sei por qual motivo um dia eu decidi comprar esse livro. Mais ainda porque iria lê-lo. Fiz os dois e não me arrependi.


Passado em Delft, nos Países Baixos, ele dá uma versão romanceada para o encontro entre uma simples camponesa (de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha) e o pintor holandês Johannes Vermeer, que teria resultado na clássica pintura Moça com brinco de pérola. Lindo, suave, uma leitura simplesmente deliciosa. E tem filme.







A história do mundo para quem tem pressa
Emma Marriott
Valentina
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Quantas vezes você se pergunta “Mas como é que foi mesmo que começou a Primeira Guerra Mundial?”? Nenhuma? Pois eu pelo menos duas por ano. Para essa e outras dúvidas, essa obra é uma mão na roda.


Começa lá nos sumérios, no início dos tempos, percorre o Oriente, as navegações, as revoluções, fala de África, da Oceania, tudo resumido para rápidas consultas ou simplesmente para nos entreter no voo, no metrô de volta para casa… Agora peraí que eu já esqueci como a Primeira Guerra começou, volto em breve.




Crédito das imagens: Terra, Medium, Folha de S.Paulo, Mubi, Amazon UK e Amazon.

Drugstore – “O júri” (livro + filme)



Existem dois ótimos argumentos para se ler um livro depois de assistir ao filme no qual ele é baseado. O primeiro é que você já sabe o assunto, facilita horrores. Ajuda até mesmo a imaginação, com os atores escalados a gente já pensa neles e pronto. O outro: se você gostou muito da película, a obra escrita age como uma versão estendida da narrativa, quase como se a tivessem transformado numa série. Faço isso sempre, só aqui no blog temos vários exemplos, Reparação, Maria Antonieta


Desta vez, repeti a fórmula com um exemplar de tribunal. E quem melhor para escolher do que John Grisham? O júri é mais um dos filmes que adoro. Por isso foi meu livro escolhido do autor, que também assina outros grandes exemplos da dobradinha literatura/cinema com A firma, O dossiê pelicano, Tempo de matar, e mais. O resultando não me surpreendeu. Praticamente devorei as páginas e passei madrugadas vidrado, sem conseguir parar de ler. A publicação aqui no Brasil é da Rocco.





A história começa a seleção das pessoas que serão responsáveis pelo veredito de um caso muito importante. Jacob Wood, fumante, morre por causa de um câncer de pulmão. A viúva dele, Celeste, processa a fabricante de tabaco. O caso pode atingir outros empresários do ramo, abrindo precedentes para outras ações e a responsabilização maior daquela indústria. Do lado da acusação está Wendall Rohr, um brilhante advogado. Do lado de lá do tabuleiro o inescrupuloso Rankin Fitch, que age nas sombras, longe do tribunal, para dar o resultado previsto aos patrões endinheirados.


No meio disso tudo, Nicholas Easter, jovem funcionário de uma loja de computadores do Mississippi, é um dos candidatos a jurado do julgamento. A entrada dele e da misteriosa Marlee nesse jogo de influências mudará tudo. Mas para qual lado?


Ficou bom esse resumo, né? Parece orelha do livro. O resto é spoiler, então paro por aqui. Depois, veja o filme no Amazon Prime Video, estrelado por Gene Hackman, Dustin Hoffman, John Cusack e Rachel Weisz. O roteiro modifica apenas um detalhe: ao invés dos cigarros, a adaptação mira a indústria das armas.







Ao encerrar a leitura de O júri, penso que John Grisham, este ótimo contador de histórias, entrará na minha lista preferencial de autores. A gente precisa de um bom best-seller de vez em quando, não precisa?




Crédito das imagens: Acervo pessoal, De Spanningsblog e Film.ru.

“Por acaso há algo mais pavoroso que o homem?”


Contar histórias é uma arte. Desde as anedotas na mesa do bar até os grandes relatos que serão estudados anos à fio, ajudando a humanidade a entender de onde se veio, para onde se vai. A jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch se encaixa no segundo caso. Seu livro mais famoso, Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear (Companhia das Letras) conta um grande fato do último século sob interessante perspectiva. Dolorida. Genial. A de quem viveu de perto a tragédia. Logo depois de finalizar a obra e assistir à badalada minissérie da HBO, li também um clássico desse gênero, O diário de Anne Frank (Editora Record). Esse post é sobre as duas histórias.





Vamos começar pela primeira, tema Chernobyl, grafada como Tchernóbil na tradução em busca de maior identidade ao relato, sobre o maior desastre nuclear da história. Em abril de 1986, um dos reatores da usina, localizada na Ucrânia, perto das fronteiras da Bilelorrúsia (no livro Belarús) e da Rússia, explodiu. Bombeiros, voluntários, grande parte da comunidade tentou extinguir o fogo num esforço heróico. As consequências, entretanto, foram desastrosas: a radiação invadiu os céus e os corpos dos combatentes, com efeitos sentidos até hoje. Muitos deles morreram nas semanas seguintes. Outros tantos viveram com as sequelas, diferentes tipos de câncer em sua maioria.





Por si só, o fato mereceu destaque na imprensa, filmes, livros. Mas Svetlana resolveu dar voz a quem viveu de perto a tragédia. Vozes de Tchernóbil é escrito em partes, esses tomos divididos por monólogos. Em primeira pessoa, como em um documentário, as transcrições são de quem perdeu alguém, de quem se sacrificou, de quem viveu naquele lugar. Mais do que o retrato da catástrofe, analisa-se a URSS como um todo, tema explorado pela autora em outras obras (A guerra não tem rosto de mulher, O fim do homem soviético).





O que achei mais impressionante foi a delicadeza do texto. Não me entendam mal. O livro provoca arrepios, não só pelo tamanho do desastre. O papel do homem nessa narrativa é fundamental. A crueldade dos governantes, a falta de informações ao público, o ruir de uma ideologia e consequentemente de uma cultura inteira. Tudo isso é colocado de maneira quase poética, fugindo da pieguice. O que me leva a Chernobyl, minissérie produzida pela HBO, incensada pelos críticos e público, angariando até o título de melhor produção do gênero em diversas premiações, incluindo o recente Globo de Ouro.





Sem ser uma adaptação oficial do livro, mas uma colagem de vários aspectos sobre a calamidade, a minissérie é, sim, muito boa. Minhas ressalvas ficam por conta de tê-la assistido depois da leitura de Svetlana. Ficou a impressão de que o programa de TV pecou pelo excesso de didatismo e pela necessidade de chocar o telespectador. De qualquer forma, vale a maratona, são cinco episódios bem escritos, atuados, dirigidos e com reconstituição de época impressionante (ainda que eu acredite que devesse ter sido falado em russo e línguas da região, talvez até com atores locais).




Logo depois de Tchernóbil e Chernobyl, fui presenteado com um exemplar de O diário de Anne Frank. Por coincidência também de autoria feminina e sobre um período obscuro do século XX. Grande clássico, passou batido na minha adolescência, fase em que acreditava que normalmente era lido. Agora, considero que a força desse relato deve ser experimentada tanto para entender a História com H maiúsculo, tanto para quem um dia deseja ter a escrita como ofício.





Nascida em 1929, Anne Frank era uma jovem judia vivendo em Amsterdam, Holanda. Em 1942, com a Europa quase tomada pelo nazismo e em meio à Segunda Guerra Mundial, ela e a família foram obrigados a se esconder. Junto deles, outros três amigos, um casal com filho e um dentista, também ocuparam um anexo na empresa de Otto Frank, pai dela.


Por dois anos eles viveram ali, passando provações e necessidades. Talvez este aspecto soturno tenha me afastado tanto tempo da leitura. Só que Anne é uma adolescente como outra qualquer. Suas questões envolviam amor, sexualidade, o entendimento do mundo e da cultura. Ela também era, pasmem, extremamente engraçada. As dramatizações dos aspectos mais corriqueiros do anexo são capazes de fazer a gente chorar de rir. Ali ela também experimentou a depressão, os conflitos da juventude e o primeiro amor.





Como todo mundo sabe, o final não é feliz. A garota que sonhava em ser escritora ou jornalista não concluiu sua maior obra, descoberta depois da Guerra, transformada em livro e até hoje um best-seller no mundo inteiro. Acostumados a ler suas cartas a Kitty, como ela chamava o diário, assim como uma amiga íntima, recebemos um ponto final sem mais nem menos. Era agosto de 1944. O anexo foi descoberto. Anne, a família e os outros habitantes do esconderijo foram mandados a campos de concentração. Só Otto, o pai, sobreviveu, levando o legado da filha adiante.





Escolhi como título do post uma das passagens de Vozes de Tchernóbil, dita em meio a um dos monólogos, que pode também ser aplicada a O diário de Anne Frank. “Por acaso há algo mais pavoroso que o homem?” é a pergunta. Essas duas histórias nos ajudam a compreender um pouco mais não somente sobre a crueldade, mas também sobre a esperança, a solidariedade e a beleza que reside até mesmo nas situações mais adversas.




Crédito das imagens: Saraiva, O Mirante, O Globo, Amazon, La Nación e History.com.