Drugstore – “O júri” (livro + filme)



Existem dois ótimos argumentos para se ler um livro depois de assistir ao filme no qual ele é baseado. O primeiro é que você já sabe o assunto, facilita horrores. Ajuda até mesmo a imaginação, com os atores escalados a gente já pensa neles e pronto. O outro: se você gostou muito da película, a obra escrita age como uma versão estendida da narrativa, quase como se a tivessem transformado numa série. Faço isso sempre, só aqui no blog temos vários exemplos, Reparação, Maria Antonieta


Desta vez, repeti a fórmula com um exemplar de tribunal. E quem melhor para escolher do que John Grisham? O júri é mais um dos filmes que adoro. Por isso foi meu livro escolhido do autor, que também assina outros grandes exemplos da dobradinha literatura/cinema com A firma, O dossiê pelicano, Tempo de matar, e mais. O resultando não me surpreendeu. Praticamente devorei as páginas e passei madrugadas vidrado, sem conseguir parar de ler. A publicação aqui no Brasil é da Rocco.





A história começa a seleção das pessoas que serão responsáveis pelo veredito de um caso muito importante. Jacob Wood, fumante, morre por causa de um câncer de pulmão. A viúva dele, Celeste, processa a fabricante de tabaco. O caso pode atingir outros empresários do ramo, abrindo precedentes para outras ações e a responsabilização maior daquela indústria. Do lado da acusação está Wendall Rohr, um brilhante advogado. Do lado de lá do tabuleiro o inescrupuloso Rankin Fitch, que age nas sombras, longe do tribunal, para dar o resultado previsto aos patrões endinheirados.


No meio disso tudo, Nicholas Easter, jovem funcionário de uma loja de computadores do Mississippi, é um dos candidatos a jurado do julgamento. A entrada dele e da misteriosa Marlee nesse jogo de influências mudará tudo. Mas para qual lado?


Ficou bom esse resumo, né? Parece orelha do livro. O resto é spoiler, então paro por aqui. Depois, veja o filme no Amazon Prime Video, estrelado por Gene Hackman, Dustin Hoffman, John Cusack e Rachel Weisz. O roteiro modifica apenas um detalhe: ao invés dos cigarros, a adaptação mira a indústria das armas.







Ao encerrar a leitura de O júri, penso que John Grisham, este ótimo contador de histórias, entrará na minha lista preferencial de autores. A gente precisa de um bom best-seller de vez em quando, não precisa?




Crédito das imagens: Acervo pessoal, De Spanningsblog e Film.ru.

“Por acaso há algo mais pavoroso que o homem?”


Contar histórias é uma arte. Desde as anedotas na mesa do bar até os grandes relatos que serão estudados anos à fio, ajudando a humanidade a entender de onde se veio, para onde se vai. A jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch se encaixa no segundo caso. Seu livro mais famoso, Vozes de Tchernóbil: a história oral do desastre nuclear (Companhia das Letras) conta um grande fato do último século sob interessante perspectiva. Dolorida. Genial. A de quem viveu de perto a tragédia. Logo depois de finalizar a obra e assistir à badalada minissérie da HBO, li também um clássico desse gênero, O diário de Anne Frank (Editora Record). Esse post é sobre as duas histórias.





Vamos começar pela primeira, tema Chernobyl, grafada como Tchernóbil na tradução em busca de maior identidade ao relato, sobre o maior desastre nuclear da história. Em abril de 1986, um dos reatores da usina, localizada na Ucrânia, perto das fronteiras da Bilelorrúsia (no livro Belarús) e da Rússia, explodiu. Bombeiros, voluntários, grande parte da comunidade tentou extinguir o fogo num esforço heróico. As consequências, entretanto, foram desastrosas: a radiação invadiu os céus e os corpos dos combatentes, com efeitos sentidos até hoje. Muitos deles morreram nas semanas seguintes. Outros tantos viveram com as sequelas, diferentes tipos de câncer em sua maioria.





Por si só, o fato mereceu destaque na imprensa, filmes, livros. Mas Svetlana resolveu dar voz a quem viveu de perto a tragédia. Vozes de Tchernóbil é escrito em partes, esses tomos divididos por monólogos. Em primeira pessoa, como em um documentário, as transcrições são de quem perdeu alguém, de quem se sacrificou, de quem viveu naquele lugar. Mais do que o retrato da catástrofe, analisa-se a URSS como um todo, tema explorado pela autora em outras obras (A guerra não tem rosto de mulher, O fim do homem soviético).





O que achei mais impressionante foi a delicadeza do texto. Não me entendam mal. O livro provoca arrepios, não só pelo tamanho do desastre. O papel do homem nessa narrativa é fundamental. A crueldade dos governantes, a falta de informações ao público, o ruir de uma ideologia e consequentemente de uma cultura inteira. Tudo isso é colocado de maneira quase poética, fugindo da pieguice. O que me leva a Chernobyl, minissérie produzida pela HBO, incensada pelos críticos e público, angariando até o título de melhor produção do gênero em diversas premiações, incluindo o recente Globo de Ouro.





Sem ser uma adaptação oficial do livro, mas uma colagem de vários aspectos sobre a calamidade, a minissérie é, sim, muito boa. Minhas ressalvas ficam por conta de tê-la assistido depois da leitura de Svetlana. Ficou a impressão de que o programa de TV pecou pelo excesso de didatismo e pela necessidade de chocar o telespectador. De qualquer forma, vale a maratona, são cinco episódios bem escritos, atuados, dirigidos e com reconstituição de época impressionante (ainda que eu acredite que devesse ter sido falado em russo e línguas da região, talvez até com atores locais).




Logo depois de Tchernóbil e Chernobyl, fui presenteado com um exemplar de O diário de Anne Frank. Por coincidência também de autoria feminina e sobre um período obscuro do século XX. Grande clássico, passou batido na minha adolescência, fase em que acreditava que normalmente era lido. Agora, considero que a força desse relato deve ser experimentada tanto para entender a História com H maiúsculo, tanto para quem um dia deseja ter a escrita como ofício.





Nascida em 1929, Anne Frank era uma jovem judia vivendo em Amsterdam, Holanda. Em 1942, com a Europa quase tomada pelo nazismo e em meio à Segunda Guerra Mundial, ela e a família foram obrigados a se esconder. Junto deles, outros três amigos, um casal com filho e um dentista, também ocuparam um anexo na empresa de Otto Frank, pai dela.


Por dois anos eles viveram ali, passando provações e necessidades. Talvez este aspecto soturno tenha me afastado tanto tempo da leitura. Só que Anne é uma adolescente como outra qualquer. Suas questões envolviam amor, sexualidade, o entendimento do mundo e da cultura. Ela também era, pasmem, extremamente engraçada. As dramatizações dos aspectos mais corriqueiros do anexo são capazes de fazer a gente chorar de rir. Ali ela também experimentou a depressão, os conflitos da juventude e o primeiro amor.





Como todo mundo sabe, o final não é feliz. A garota que sonhava em ser escritora ou jornalista não concluiu sua maior obra, descoberta depois da Guerra, transformada em livro e até hoje um best-seller no mundo inteiro. Acostumados a ler suas cartas a Kitty, como ela chamava o diário, assim como uma amiga íntima, recebemos um ponto final sem mais nem menos. Era agosto de 1944. O anexo foi descoberto. Anne, a família e os outros habitantes do esconderijo foram mandados a campos de concentração. Só Otto, o pai, sobreviveu, levando o legado da filha adiante.





Escolhi como título do post uma das passagens de Vozes de Tchernóbil, dita em meio a um dos monólogos, que pode também ser aplicada a O diário de Anne Frank. “Por acaso há algo mais pavoroso que o homem?” é a pergunta. Essas duas histórias nos ajudam a compreender um pouco mais não somente sobre a crueldade, mas também sobre a esperança, a solidariedade e a beleza que reside até mesmo nas situações mais adversas.




Crédito das imagens: Saraiva, O Mirante, O Globo, Amazon, La Nación e History.com.

Bates Motel, Mato Grosso



Leia este post ouvindo: Bernard Herrmann – Psycho (Original Soundtrack Theme)


Qualquer dia desses o Loz Engelis muda de nome para Blog Psicose. São vários os posts aqui dedicados a um dos maiores clássicos do cinema e ao diretor dele, Alfred Hitchcock. Desta vez eu venho contar uma curiosidade que, acredito, caberia melhor até no La Dolce Vita, página com histórias incríveis sobre a antiga Hollywood (e outras tantas mostrando o lado B da indústria do cinema).


Há um tempo, dando um rolé no Sebinho, aqui em Brasília, achei um livro sobre o qual nunca tinha ouvido falar. Janet Leigh, a Marion Crane de Psicose, contava a versão dela sobre os bastidores do filme. Esse relato em primeira pessoa, escrito com Christopher Nickens, subiu rapidamente na minha lista de leituras futuras. Devorei rapidinho.





Claro que sendo um admirador ferrenho da película em questão, já li muitas coisas sobre ela, tal e qual o livro Alfred Hitchcock e os bastidores de Psicose e Hitchcock, adaptação cinematográfica do mesmo. Mas o que realmente me chamou atenção em Psycho: Behind the scenes of the classic thriller foi algo muito inusitado, pelo menos para mim. Janet Leigh e Anthony Perkins, a Marion Crane e o Norman Bates, já estiveram em Cuiabá!





O fato está registrado já no fim da obra, quando ela comenta sobre a repercussão da fama conquistada pelo legado de Psicose. Os astros da fita foram convidados, junto de outros nomes do cinema da época, a participar de uma entrega de prêmio em Buenos Aires, Argentina.


Nessa mesma turnê, uma espécie de visita de boas vindas incentivada pelo governo americano, a atriz e companhia rumaram a Cuiabá. Ela conta no livro que o grupo participou de um programa de TV em que a apresentadora confundiu o marido dela, um empresário, com o ator principal da série Rota 66.





Procurei e não achei nenhum registro fotográfico dessa temporada brasileira de Janet e Perkins. Uma pena. Teremos que rever Psicose, se não para comprovar a citação, mas pelo menos para matar as saudades.


O Bates Motel, quem diria, poderia ter tido uma filial no Mato Grosso.







Crédito das imagens: Giphy.