Não deixem a audiência estragar “Amor de mãe”



Para mim, noveleiro de carteirinha, Amor de mãe foi um alívio na programação. Depois de algumas experiências malsucedidas no horário das nove, a Globo investia, enfim, em uma trama adulta, madura e, principalmente, ousada.


Estreante na faixa, Manuela Dias montou uma verdadeira teia onde as histórias se misturam a torto e a direito, tudo feito de maneira sutil e com acertos no elenco, direção e fotografia. Agora, meu maior medo é que esta experiência completa dê errado pelo motivo supostamente certo: a audiência.





Há menos de um mês, notícias davam por conta de que, na luta por maiores índices no Ibope, a novela teria mudanças, dentre elas mais humor e menos invencionices no comando das câmeras, por exemplo. Passado um tempo, essas modificações são notáveis.


Algumas foram bola dentro, por exemplo Lurdes (Regina Casé) no avião pela primeira vez e também tomando um porre de gin tônica com Lídia (Malu Galli). Mas e outros enredos? Ficaram menos desafiadores por conta da cobrança de mais TVs ligadas na Globo ou sempre estiveram nos planos à longo prazo?


Já havia lido um comentário, não lembro onde, sobre alguns personagens da trama e seus desvios de rota, o qual concordei. A professora Camila (Jéssica Ellen), por exemplo. Mulher corajosa, ela enfrentou Álvaro (Irandhir Santos), Deus e todo mundo, tomou tiro, fez discursos inesquecíveis… De repente ficou só no chororô, enredada na trama do filho gerado pela sogra.





Vitória (Taís Araújo) foi outra que andou para trás no tabuleiro. A Olivia Pope do Leblon ficou pobre e perdeu o juízo. Pegou dinheiro com agiota, Penha (Clarissa Pinheiro), a mesma que há um mês engolia os desmandos da patroa. Agora a ex-empregada doméstica aterroriza geral junto de Leila Beatrix Kiddo (Arieta Corrêa), Thelma & Louise do Passeio.


Ainda temos muito mais. Vladimir Brichta, o ambientalista Davi, se ainda estivesse estrelando Rock story às sete da noite eu nem duvidava. A história da tenista Marina (Erika Januza) não emplaca, nem desaparece. E olha que a personagem deu sorte, hein! Podia ter morrido como Vinícius (Antonio Benício), Amanda (Camila Márdila) e outros tantos. E don’t get me started nos problemas conjugais de Matias (Milhem Cortaz).





Obviamente ninguém faz nada de graça, nem por amor à arte. O principal produto de dramaturgia da maior emissora do país tem como objetivo gerar dinheiro por meio de anúncios. Não dizem que TV é aquilo que se faz entre uma propaganda e outra? Então. Mas já vimos esse filme antes. Ou melhor, essa novela. Deixar de lado a integridade artística em detrimento de mais alguns pontos de audiência pode não valer a pena no resultado final.


Tal raciocínio vale também para o fan service, expressão cunhada para aquelas modificações nas narrativas feitas apenas para agradar os fãs, muitas vezes esquecendo da criatividade que as consagrou (um artigo muito interessante sobre isso está neste artigo, Fandom is broken). Aqui no Brasil há ainda outro conceito bem peculiar, o “grupo de discussão”, isto é, quando a emissora promove rodadas de debates para saber a opinião de quem assiste às tramas.


Será que hoje, por exemplo, teríamos o mesmo final de The Sopranos se os criadores ouvissem só os desejos dos ardorosos admiradores? Talvez, como público, estejamos mais afiado do que na época de Dallas – nos anos 1980, uma temporada inteira foi transformada em “sonho” de um dos personagens quando seus índices de espectadores despencaram.





Voltando a Amor de mãe, os mais tradicionais podem até dizer que novela é novela, mocinho e mocinha, vilão malvado, temas repetitivos, tudo e tal, e isso não deveria mudar. Eu discordo. Acho que ela pode, sim, evoluir. Mesmo que para isso tenha que se reinventar, testando ainda mais a tão temida audiência.




Crédito das imagens: Wikipedia, Observatório da TV, Gshow e Twitter.

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