“Like a prayer” completa 30 anos e a oração de Madonna ainda ecoa…



Numa era bem antes do Instagram, Twitter ou das Kardashian, não era tarefa fácil adentrar a intimidade de um ídolo. Essa experiência deveria partir do próprio artista, fosse em entrevistas reveladoras ou por meio de seus trabalhos.


Pegando esse último exemplo, pode-se dizer Madonna realmente se abriu ao público pela primeira vez há exatos 30 anos, em Like a prayer, talvez um dos melhores álbuns da carreira dela e já um clássico da música pop.





Para entender o fenômeno, voltemos aos anos 1980. No início daquela década, a cantora, nascida em Detroit e oriunda de bandas nova-iorquinas de pouco alcance, despontou com o sucesso Everybody. A persona criada por ela, misteriosa e levada, chamou alguma atenção do público e da mídia.


Tudo mudou radicalmente quando Madonna entrou o palco na estreante premiação da também jovem MTV, o VMA, responsável por laurear os melhores clipes do ano. Vestida de noiva, ela saiu de dentro de um bolo, seduziu a platéia e rolou pelo chão cantando seu mais novo single, Like a virgin. Daí em diante, pode-se dizer, milhares começaram a admira-la.





Em seguida, mais um álbum, True blue, e o começo de uma marca registrada que perdura até hoje: a mudança de visual a cada nova fase na música. Ainda entraram na baila nesta empreitada uma influência dos anos 1950, o romance com o chave-de-cadeia Sean Penn e um novo corte de cabelo.


A fórmula parecia estar pronta e consolidada: músicas chiclete, alusões ao sexo, looks marcantes… Ninguém estava preparado para o que estava por vir.




Uma propaganda anunciou a novidade. “Em 2 de março de 1989, arrume uma TV e assista ao comercial da Pepsi com Madonna, onde ela apresentará sua nova canção, Like a prayer”.


Naquela quinta-feira, a diva apareceu na telinha entoando a faixa, celebrando o aniversário de uma pequena versão de si mesma – o tema mesclava o pop com o gospel e até o rock, algo ainda inédito na sonoridade dela. Corta para.




O dia seguinte, lançamento do clipe oficial. Na produção, roteirizada como peça de teatro, a cantora, em versão morena, testemunha uma cena racista, onde a polícia prende um homem negro falsamente acusado de assediar uma mulher branca.


De modo alegórico, este mesmo homem transforma-se em Jesus Cristo e uma Madonna penitente canta em frente a cruzes pegando fogo, símbolo da Klu Klux Klan, movimento supremacista que prega a dominação caucasiana. Os católicos ficaram enfurecidos, a América chocada e a Pepsi cancelou a exibição da propaganda.




Em 21 de março, o álbum completo chegou às lojas. O trabalho abre com a faixa título, do qual já comentamos.


Se em 1984, ela sentia-se como uma virgem, agora cantava sobre um amor em forma de oração. Não reconhecida por ser a mais bela voz da música (nem a pior), Madonna trata seu instrumento de comunicação aqui com muito esmero. A música começa com riffs de guitarra, termina com coral gospel.


A religião, presente no figurino dela desde o início da carreira, ornamentado por crucifixos aliados a roupas curtíssimas e meia-arrastão, a família e a vida íntima estão também no encarte: nele, a cantora dedica o álbum à mãe, que a ensinou a rezar.


Em seguida vem Express yourself e Madonna dá a letra. Neste tema feminista, ela clama às mulheres para não serem as segundas opções dos homens e para botarem a boca no trombone. O clipe, já icônico, tem cara de cinema noir, e foi dirigido por David Fincher, dos futuros filmes Seven (1995), Clube da luta (1999) e A rede social (2010).




Love song une dois grandes nomes do pop, coincidentemente nascidos no mesmo ano, a rainha do gênero, dona da porra toda, e Prince. Era o primeiro featuring dela. Alguns versos, inclusive, foram aproveitados anos depois no hit disco Hung up.


Faixa 4, Til death do us part, uma das mais subestimadas músicas do cancioneiro madonnístico, é reveladora. Conta o fim de um relacionamento, mas em versão dançante. Os recursos de som, por exemplo vidros quebrando, mais a letra, “ela leva as chaves, ele quebra a porta, ela não pode ficar mais lá, ele não a ama mais“, evocam o suposto casamento abusivo com Sean Penn.


Com Promise to try, ela homenageia a mãe, também chamada Madonna, que morreu quando a cantora tinha apenas 5 anos, deixando uma lacuna na vida da caçula Ciccone. Difícil escutar sem sentir alguma emoção.


Cherish joga o astral mais para cima, alegria ilustrada pelo videoclipe, uma idílica viagem à praia comandada por Herb Ritts, responsável também pelo ensaio fotográfico do disco (no folheto, em ação inédita na época, havia também um alerta para a crescente epidemia de AIDS).




A fofa Dear Jessie é um passeio mágico pelo parque de diversões, feita especialmente para a filha do produtor Patrick Leonard.




Em Oh Father, Madonna aborda novamente o tema familiar, desta vez uma possível relação conturbada com o pai (ou seria, novamente, uma referência a Penn?): “Você não pode me machucar mais, eu me afastei de você, nunca pensei que conseguiria“.




Keep it together suaviza as relações genealógicas, mantém os entes queridos mais perto em clima festivo, logo depois, Spanish eyes reforça a atração da cantora pelo universo latino, desta vez em tema mais melancólico do que a colorida La isla bonita do predecessor True blue dois anos antes.


O ponto final vem com Act of contrition, uma explosão de ritmos experimental. Hoje os artistas podem lançar o que for de maneira avulsa na internet, mas em 1989 era um risco danado aventurar-se no limitado espaço do vinil. Poderia gerar um custo não financeiro, mas artístico. Não aqui. A música fecha o trabalho como começou, genial, tal como uma narrativa bem contada.





Like a prayer, 30 anos depois do lançamento, continua relevante para qualquer fã de música pop que se preze – escute hoje, em LP, K7, CD ou Spotify. Em tempo: foi lançada hoje nos serviços de streaming uma versão especial do disco incluindo alguns remixes e a pouquíssimo conhecida b-side Supernatural.


E se você pensou que esse foi o máximo da exposição de Madonna como artista, o álbum gerou ainda dois produtos tão reveladores quanto: a turnê Blond Ambition e o documentário Na cama com Madonna. Mas sobre isso a gente conversa em um próximo capítulo…





WHAT DO YOU MEAN IT’S NOT IN THE COMPUTER?




Crédito das imagens: Herb Ritts reproduzido em Pinterest, Madonna Superstar Queen Photogallery, History Lovers Club, Madonna Gettogether e Gringos Records.

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