A serpente que encantava o (outro lado do) paraíso *

* Mais um texto inédito, produzido em janeiro de 2018, voilá!




Não é exagero afirmar que a vingança é um dos temas mais instigantes das narrativas. Na teledramaturgia brasileira, então… Ela deve ser comida quente, pelando. Quando esse assunto é destaque nos folhetins, é impossível para o público não ficar vidrado na telinha durante meses, depois do Jornal Nacional, tomando as dores de quem tomou naquele lugar e está pronto para dar o troco.


Uma história nesses moldes é a atração no horário das nove global desde outubro. Em O outro lado do paraíso, de Walcyr Carrasco, Clara (Bianca Bin) é uma jovem digna e honesta que se apaixona pelo cara errado, o violento Gael (Sérgio Guizé). Ela também é manipulada pela sogra nefasta, Sophia (Marieta Severo), que deseja a mina de esmeraldas herdada pela protagonista. Para tirar a inimiga do caminho, a malvada consegue interná-la num hospício. Dez anos depois, Clara foge de lá, fica rica e volta com um plano mirabolante.


O que era um enredo promissor, à la O Conde de Monte Cristo, virou uma comédia involuntária por causa do texto clichê e das reviravoltas com cara de Televisa. Mas curioso mesmo era acompanhar até pouco tempo atrás, alguns canais acima no rol do controle remoto, uma novela também centrada no tema vingança, mas para ninguém botar defeito: Tieta, reprisada de maio a dezembro de 2017 no Viva, e exibida originalmente há quase trinta anos.







Segue o mote. Santana do Agreste, um pedaço de chão abençoado pelos deuses e abandonado pelos homens, parou no tempo. Nem luz elétrica tinha. A rotina deste vilarejo baiano mudará com a volta de Antonieta.


Cria do conservador Zé Esteves, a garota, chamada de cabrita pelos homens da cidade, mexia com a cabeça deles. Livre, experimentou o sexo nas dunas de Mangue Seco, conheceu o amor e aprendeu o “ipsilone duplo”. Até que a irmã dela Perpétua abre o bico por pura inveja. Assim, a moça é expulsa da cidade, escorraçada, apoiada por apenas poucas pessoas.




Vinte anos depois, a boa filha a casa torna. Nessa versão de A volta da velha senhora no Nordeste brasileiro, Tieta, dada como morta, ressurge emperiquitada, toda de couro vermelho. “Isso não é mais uma mulher, isso é uma plantação inteirinha de xibiu”, decreta Bafo de Bode, o circense beberrão. “Isso é o que se chama de uma recepção da moléstia”, gargalha a quarentona, vivida magistralmente por Betty Faria.




Nossa Beatrix Kiddo tupiniquim deseja apenas uma coisa: a desforra. E nessa trajetória, ela passará por uma jornada lembrando sempre ao espectador do provérbio chinês, “aquele que busca vingança deve se lembrar de cavar dois túmulos”.




Como toda boa novela, outros núcleos de tempos em tempos se sobressaem. Temos Ascânio (Reginaldo Faria), o homem que retornou à cidade natal para ajudar o lugar a evoluir. Cinira (Rosane Gofman) e Amorzinho (Lilia Cabral), as beatas amigas da amarga Perpétua (Joana Fomm) – a primeira, virgem, tremia ao avistar qualquer homem “se dando ao desfrute”, enquanto a segunda, viúva, tinha fama de andar “sem calçola” dentro de casa.




Isso sem contar outros tipos, tais como Jairo (Elias Gleizer), motorista da marinete, o padre Mariano (Cláudio Corrêa e Castro), Modesto Pires, vivido por Armando Bógus, um tipo escorregadio e sacana, a simpática Carmosina (Arlete Salles) e a mãe dela, dona Milu (Miriam Pires), dona do bordão “Mistééééério”, dentre muitos…


O sucesso foi estrondoso. Mérito de Jorge Amado, dono da história original, publicada em 1977, e também do trio que adaptou a trama para a TV, Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.


O elenco também merecia aplausos de pé. Monstros sagrados da teledramaturgia. Yoná Magalhães, Ary Fontoura… Meu grande crush Lídia Brondi… Uma verdadeira aula para quem gosta deste que é um dos maiores produtos culturais do Brasil, a novela. Agora, não se entristeça porque Tieta foi reprisada e você perdeu. Tem uma versão dela em DVD.


Eu mesmo, já de calundu com o fim da trama, arrumei uma maneira de matar as saudades.


Vou ler o livro.




Top revanche
Confira cinco novelas que usaram a vingança como força motriz de seus enredos


Avenida Brasil (2012)
Jogada em um lixão pela madrasta, Nina (Débora Falabella) volta anos depois para uma revanche. O alvo é a golpista Carminha (Adriana Esteves), toda trabalhada na maldade e no figurino Michael Kors. Mesmo que todo mundo torcesse pela mocinha, a vilã caiu no gosto do público e a cada twist frenético da trama o Brasil inteiro vibrava, com direito a #OiOiOi em uníssono no Twitter.





Quatro por quatro (1994/1995)
Depois de serem abandonadas por seus respectivos companheiros, quatro mulheres se envolvem num acidente de carro. Esse enredo digno de Alejandro Gonzáles Iñárritu vira comédia pastelão com o texto de Carlos Lombardi, já que o quarteto vai parar na cadeira por desacato após um pití coletivo. Elas viram amigas ainda na cela e planejam arruinar os embustes que as deixaram na bad. Hit do horário das sete, a trama contava com Elizabeth Savalla, Cristiana Oliveira e Betty Lago nos papéis principais, ao lado de uma estreante Letícia Spiller, a Babalu, capa de um dos melhores discos internacionais de novelas de todos os tempos.





Marimar (1994)
Impossível falar de tramas de vingança e não nos lembrarmos dos nossos queridos mexicanos do SBT. Estrelada pela deusa Thalia, o segundo volume da trilogia das Marias, composta ainda da Mercedes e da do Bairro, mostra uma garota inocente que vive numa choupana junto dos avós e do cãozinho Pulguento (que até falava, quer dizer, pensava alto, tipo os cachorros criados pelo Mauricio de Sousa).


Ela se apaixona por um jogador de futebol, enteado de, pasmem!, uma madrasta má. Tretas e mais tretas acontecem, Marimar perde tudo, foge, descobre que é rica, volta tombando, que tiro foi esse?, dona de cassino, a zorra toda. Em momento icônico, a moça, obrigada no passado a meter a cara numa poça de lama, manda a canalha Angélica (Chantal Andere) a chafurdar.





Fera ferida (1993/1994)
Aguinaldo Silva explora a vingança como tema, um dos mais recorrentes da carreira dele (Duas caras, por exemplo). Com inspiração em obras de Lima Barreto, a trama mostrava a trajetória do alquimista Raimundo Flamel (Edson Celulari), que retorna a fictícia Tubiacanga para ficar quite com a cidade inteira depois da morte injusta dos pais.





Fera radical (1988)
Fera é fera, gente, e antes da “ferida” o Brasil conheceu uma “radical”. Reprisada na mesma época de Tieta no Viva, a novela trazia Malu Mader, uma técnica em informática motoqueira, querendo botar para quebrar com a família de Paulo Goulart, responsável por acabar com a dela. Com o último capítulo exibido no fim de janeiro, as madrugadas aqui em casa não são mais ao som do tema de abertura, “não me leve a mal, não é nada pessoal, fera, fera radical, viver além do bem e do mal, demaaaaaaaaaaaaaaais”.







Crédito das imagens: Reprodução, Divulgação, Bazilio Calazans (TV Globo), YouTube e TV Time.

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