Ensaio sobre a cegueira



“Nós apenas queríamos deixar o mundo melhor”, diz o algoz à sua vítima. “Melhor?”, ela pergunta. Ele responde: “Melhor nunca significa melhor para todo mundo. Sempre significa pior para algumas pessoas”. O diálogo pode muito bem servir como resumo de The handmaid’s tale. Mas de simples a série do serviço on demand Hulu e um das surpresas da temporada com 13 indicações ao Emmy 2017 não tem nada.


Em um futuro não muito distante, a sociedade americana como a conhecemos hoje se acabou. As intervenções humanas na natureza causaram desastres consideráveis. Um dos infortúnios trazidos por esse cenário é a queda vertiginosa nas taxas de natalidade. Para reverter o problema, cria-se um novo país em que a Bíblia sobrepuja-se à constituição. Os homens passam a dominar os mais altos setores políticos. Ao invés de carros voadores, uma ditadura. É mais Black mirror do que Blade runner.





Médicos e professores são perseguidos, livros são queimados, igrejas destruídas, gays e outros “inimigos” da nova ordem recebem a morte como punição. Às mulheres férteis, grupo demográfico raro, é reservado o papel de aia. Elas são inseridas nas famílias abastadas e estupradas para gerar filhos e repovoar o planeta em crise. Vigiadas o tempo todo, até mesmo umas pelas outras, as serviçais usam vestes vermelhas coroadas por um chapéu que as impede até mesmo de olhar para o lado.





Essa distopia é o lar de Offred, a protagonista da história. Casada, feliz e mãe de uma menininha, ela viu seus direitos serem retirados aos poucos junto de toda uma América paranoica, amedrontada e confusa. Antes editora, agora aia, Offred é separada da própria família para servir aos figurões da República de Gilead, os novos EUA.


Caso você resolva se aventurar pela série, aconselho uma proteção digestiva. É preciso ter estômago. Fígado! As mulheres aparecem subjugadas, humilhadas, renegadas. As cenas são fortes, o tema é pesado, a injustiça dói. Porém, nada é colocado de forma gratuita apenas para chocar, gerar buzz ou alavancar a audiência. Baseados no livro O conto da aia (1985), de Margaret Atwood, também produtora da série, os episódios prezam pelo bom texto, direção de arte, figurinos e fotografia acertadíssimos e uma delicadeza agressiva na hora de abordar os temas mais espinhosos.





Outro ponto que merece destaque é a direção. Ainda se fala muito em Hollywood sobre a falta de oportunidade para mulheres no cinema, principalmente escrevendo filmes ou comandando os sets (falamos um pouco sobre isso no post sobre Feud, lembram?). Foi um alívio observar a cada crédito final que as mulheres dominaram o “directed by” da série – dos 10 episódios da primeira temporada, oito foram dirigidos por nomes ainda pouco conhecidos como Reed Morano a outros já com bagagem completa, caso de Kari Skogland, que tem episódios de Queer as folk, The killing e House of cards no currículo, e Floria Sigismondi, conhecidíssima pelo trabalho em clipes musicais.





O elenco também merece todos os créditos por engrandecer a produção. Muitos irão se surpreender, por exemplo, com Alexis Bledel. A girl next door de Gilmore girls interpreta uma das aias sofridas que acaba virando amiga de Offred. Samira Wiley, a Poussey de Orange is the new black, é Moira, amiga da protagonista desde quando o mundo ainda era o que era antes. Madeline Brewer, a Tricia, ex-colega de cadeia de Samira em OITNB, agora arrebenta no papel de uma jovem perturbada.





Do lado “ruim da força”, Ann Dowd vive tia Lydia, uma misto de pastora, treinadora e juíza das mulheres da comunidade, enquanto Yvonne Strahovski (Chuck, 24 horas: Live another day, Dexter) interpreta Serena Joy, o Nemesis de Offred (e você vai amar odiá-la, acredite). Dentre os personagens masculinos estão O Comandante, vivido por Joseph Fiennes, e o motorista Nick (Max Minghella).





Todos os atores estão ótimos. Mas eles que me desculpem: The handmaid’s tale é todinho de Elisabeth Moss. O trabalho dela, nunca exagerado ou caricato, transmite todas as nuances dramáticas de Offred. E ainda entrega uma protagonista daquelas de novela – você tem vontade de acolher quando ela sofre, dar um sacode quando ela vai fazer alguma burrada, ajudar depois que ela passa um perrengue… Para quem acompanhou Elisabeth em sete temporadas de Mad men, como eu, fica a chance de ver uma atriz excelente subir as apostas. Estou cada vez mais curioso para começar a ver Top of the lake, produção também estrelada por ela e que vai ganhar novos episódios ainda este ano.





Depois dessa chuva de elogios, preciso fazer um mea culpa. The handmaid’s tale tem, sim, um grande defeito: ela se parece demais com a realidade em alguns aspectos. Acha exagero? Olhe ao redor. Nós, brasileiros, fomos testemunhas de mais um show de horrores ainda ontem (2/8). Cargos, medidas provisórias e verbas no orçamento foram moeda de troca para que os nossos deputados livrassem o presidente do pais de uma investigação por corrupção passiva. Não parece uma nova ordem? Infelizmente não para por aí.


O machismo se assume sem a menor vergonha, o racismo é exaltado, a raiva à comunidade LGBT saiu de vez do armário. Duvida? Leia os comentários dos sites de notícias, os tweets preconceituosos, o ódio em posts de Facebook com letras garrafais, nome e sobrenome… Vivemos tempos em que figuras como Jair Bolsonaro, Marco Feliciano, Vladimir Putin e Donald Trump ganham cada vez mais visibilidade. Tempos em que a bancada evangélica da Câmara Legislativa do Distrito Federal, onde mora este que vos escreve, derrubou recentemente uma lei anti-homofobia…


Mas, lembrando aqui de The handmaid’s tale, a ironia é a seguinte.


Em um mundo injusto, desolador e aparentemente infértil, ainda há espaço para que nele cresça a esperança, se gere a compaixão e vingue o ardente desejo de lutar. Como bem diz a protagonista da série, “eles nunca deveriam ter nos dado uniformes se não quisessem que a gente formasse um exército”.


Nolite Te Bastardes Carborundorum.


(Não entendeu? Assista a série!)







Crédito das imagens: Screen Rant, Nerdist, Refinery29, Curbed, Business Insider e The Independent.

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