Duelo de titãs



Em 1950, o filme A malvada, um dos meus favoritos de todos os tempos, contou a história de uma atriz à beira do ostracismo – Margo Channing tinha seu posto “roubado” pouco a pouco por uma ardilosa admiradora bem mais jovem. Em uma das cenas, Bette Davis, a estrela da película, sela seu destino: “Eu não tenho mais vinte, não tenho mais trinta… Há alguns dias eu completei QUARENTA ANOS. Escapou. Não estava preparada para admitir. Agora eu me sinto como se, subitamente, tivesse tirado toda a minha roupa”.


O que parece um absurdo hoje em dia, era, sim, a lei vigente em Hollywood. A carreira de uma atriz, bem como os índices de sucesso nas bilheterias, estava diretamente ligada à juventude delas. Mas fica a pergunta. Mais de cinco décadas depois deste episódio, a situação teria finalmente mudado?


Feud: Bette and Joan, do produtor Ryan Murphy (Glee e American crime story: The People v. O.J. Simpson), pelo menos tenta jogar uma luz a essa questão.





A antologia promete contar em oito partes a épica disputa de egos entre Bette Davis e Joan Crawford nas filmagens de O que terá acontecido a Baby Jane?, de 1962. Porém, mais do que boas fofocas e doses de veneno, o primeiro episódio mostra essas duas estrelas lutando contra um mundo profissional machista e tendo que provar ainda serem relevantes mesmo com rugas no rosto.








Nas cabeças de Feud, dois ícones do cinema com mais de 60 anos interpretam as divas (Susan Sarandon, que dá vida a Bette, completa 71 em outubro enquanto Jessica Lange, também estrela recente de outras produções de Murphy, incluindo quatro temporadas à frente de American horror story, está com 68).











Uma bela lição de casa para qualquer um que ame a sétima arte, suas estrelas e seus meandros, a série do FX também me deixou pensando na questão da mulher mais velha em Hollywood. Claro que falo sobre o tema com o distanciamento de gênero necessário. Reconheço aqui meu privilégio como homem de 30 anos. Aliás, perto de completar essas trinta primaveras, tudo o que eu escutei foi “Você está no seu auge, a diversão começa agora…”. Enquanto isso, minhas amigas e contemporâneas foram bombardeadas com “Não vai casar? E o bebê? Tá na hora de arrumar uma casa, tá na hora de se aquietar”, dentre outros disparates quando viraram a folhinha para soprar as velinhas.


Porém, como um grande admirador das grandes atrizes e divas – sejam da música, cinema ou TV, nacionais e estrangeiras – essas dúvidas martelam a minha cabeça há algum tempo. Uma coisa que sempre achei muito estranha foi o poder de sumiço das mulheres das telas conforme o tempo passava.


Vamos pegar a brasileiríssima novela como exemplo. Primeiro, ela é a mocinha. Este arquétipo, em seus 20, 20 e poucos anos, é indefesa, romântica e pouco sexual (mas pronta para ser sexualmente ativa se, e apenas SE, encontrar o verdadeiro amor). Conforme o tempo passa, nossa atriz vê seu nome descendo nos créditos. Aos 30, pode ser a irmã mais velha da protagonista ninfeta ou aquela mocinha mais “rebelde”, com um filho à tiracolo de outro relacionamento problemático, mas que ainda precisa descobrir o… sucesso financeiro, emocional, a viver feliz sozinha? Não. Ela ainda precisa encontrar… o verdadeiro amor.


Dos 40 em diante, só com muita sorte, do tipo “papel certo na trama certa”. Algumas conseguem uma grande vilã, personagens reais, ou chegam a se “enfeiar” para provar de vez o talento. Daí, não tem mais jeito. Elas somem mesmo dos nossos folhetins. Voltam como as condescendentes MÃES das mocinhas e o ciclo, enfim, se renova. Não à toa temos visto na mídia, cada vez mais, atrizes consagradas de outrora fazendo apelos na internet e em programas de TV para arrumar emprego.


Em Hollywood, onde se passa a trama de Feud: Bette and Joan, não é diferente. Começam como Elle Fanning, depois Jennifer Lawrence, viram Natalie Portman, evoluem para Amy Adams, se transformam em Julia Roberts e… UAI. CADÊ? Ah, sim. Voltam anos depois de Diane Keaton e assim vai… Você pode até achar um ou outro exemplo que contradiga. Mas DIZ NA MINHA CARA se não é assim? Como bem brincou a Tina Fey em um dos monólogos do Globo de Ouro, “Meryl Streep está indicada esta noite, provando que ainda existem bons papéis para as Meryl Streeps com mais de 60 anos”. Infelizmente, nem todo mundo é Meryl Streep, uma das únicas que fogem dessa equação.


Dá para imaginar, então, como deve ter sido para Joan Crawford e Bette Davis há mais de cinquenta anos? A rivalidade entre elas era o menor dos problemas das duas. Na disputa, elas lutavam, sim, contra um sistema absurdo, machista e em que a gerontofobia imperava. Usando o talento e o poder como armas, elas podiam até não saber na época, mas estavam do mesmo lado do ringue.








Continuo a me perguntar. Mudamos tanto assim? Assistam Feud e vamos falar sobre isso.








PS: Também nessa semana, por coincidência, eu terminei de assistir à primeira temporada de Grace and Frankie, do Netflix. Gostei, achei legalzinho e, embora tenha algumas ressalvas, como ter achado muito “Phoebe e Rachel resolvem morar juntas na terceira idade” (a co-criadora, Marta Kauffman, também é uma das responsáveis pelo sucesso de Friends), Jane Fonda e Lily Tomlin estão muito bem. Elas interpretam septuagenárias que se confrontam com a separação – os ex-maridos, juntos em segredo há duas décadas, resolvem assumir esse amor e até mesmo casar de papel passado.


A dramédia mostra algumas das situações vividas pela dupla, tentando se acostumar a ser solteira aos 70. Em determinada cena, Fonda aparece de camisola, TOMBANDO com a cara da sociedade, linda, deslumbrante. Não que faça diferença, mas ela fará 80 ANOS agora em 2017 (Tomlin, a companheira de tela, está com 77).


Grace and Frankie já tem duas temporadas disponíveis no serviço de streaming e a terceira estreia agora, no dia 24 de março.







Crédito das fotos: Entertainment Weekly, TV Guide, The Odyssey Online, Doctor Macro, Adweek e Pinterest.

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Uma resposta para Duelo de titãs

  1. Renata disse:

    Vou pesquisar pra assistir Feud. Sem querer querendo, estou ouvindo umas músicas de uma banda chamada Blue Öyster Cult e eles tem uma música chamada Joan Crawford. Graças a você agora sei quem é Joan Crawford. https://www.youtube.com/watch?v=eKpxuptvQYU (No, no, no, no, no, no, no, no, no, no, no, no, Joan crawford has risen from the grave)

    Tb estou assistindo Gracie and Frankie. Tô na 2a temporada e me surpreendeu positivamente. Adorei o post!

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