Parceiros no crime

Estranho - Cartaz



Eu ando sem paciência para filmes. Sem querer pagar de cinéfilo (nada contra, tenho até amigos que são), mas o fato é que eu já vi tanta coisa em se tratando de sétima arte que, com o passar do tempo, tudo começou a ter cara de mais do mesmo, deixou de surpreender. Como também não sou fã da Marvel e das inúmeras películas de aventura e ação do momento, deixei de lado a sala escura. É fato também que as séries, algumas com narrativas bem interessantes para a telinha, também me roubaram desse segmento.


Esse meu abandono ao cinema me dói, então, de vez em quando, resolvo dar chance a algum lançamento. Depois de duas horas assistindo a uma bomba – algo que fazia sem arrependimento há dez, quinze anos atrás -, prefiro rever alguma bobagem favorita na próxima investida (Instinto selvagem acompanhado de uma pizza grande pode ser um acalento para os domingos à noite). Felizmente, se estou inspirado para me arriscar a ficar duas horas sem meu celular (manda nudes), eventualmente acerto na escolha. Foi o que aconteceu quando decidi assistir ao francês Um estranho no lago.


Estranho 01


Não sou de muitos pudores, então vou jogar logo a real. O tal filme encontrava-se na minha lista de must-see devido ao burburinho causado pelas cenas de sexo explícito. Sempre acho interessante ver como o cinema, hoje em dia tão careta pro meu gosto, principalmente na terra do tio Sam, expande as barreiras nesse assunto (nunca entrou na minha cabeça o fato de um tiro ser mais perigoso do que uma foda na tela grande, pardon my french). A surpresa veio quando, ao final da projeção on demand no conforto do meu lar, as cenas quentes foram as que menos me impressionaram. O que prova que o filme é muito bom (ou que eu sou viciado em pornografia, não descartei essa hipótese).


Estranho 02


Depois da cena inicial, a visão sem alardes de um estacionamento de brita, sem créditos iniciais, nem nada, somos apresentados a Franck (Pierre Deladonchamps). Ele é um cara normal, gay, que visita diariamente as imediações de um lago. A espécie de praia em moldes petit é um paraíso voyeurístico em que homens nadam nus livremente. A pegação, para usar um pajubá correto, é também uma das atrações do local: nos bosques adjacentes, o sexo é liberado sem cerimônias. Não é preciso nem perguntar o nome. Rolou tesão, rolou de tudo. Depois é vlw, flw, abs. Nesse paraíso da luxúria, o protagonista começa sua trajetória fazendo amizade com Henri (Patrick d’Assumçao), um lenhador solitário e majoritariamente heterossexual, que vê a vida passar durante suas três semanas de férias sentado naquelas pedras.


Estranho 03


É quando surge a visão de Michel (Christophe Paou, e que paou!), um tipo bigodudo que lembra os atores pornôs gays da década de 70, uma mistura de Colt Studios com o toque fetichista das obras de Tom of Finland (não se faça de inocente, pois você sabe muito bem quem são esses, tá, pra cima de moi, chérie, jamé). Depois de discreta paquera, os dois se embrenham no mato e mandam ver. Nas cenas, sexo oral e closes das genitálias aparecem escancaradamente (antes disso, além de uma caralhada de pirus moles, há também um close de ejaculação).


Talvez se fossem menos hardcore e mais numerosas, tais frames seriam até mais importantes para o desenrolar da história. Mas o importante aqui é o seguinte: a fudelança desenfreada é a coisa menos chocante nessa fita. Para quem espera uma pornô soft com cara de filme-cabeça, pode ir para o bom e velho xis-vídeos e botar a cachola para funcionar no modo bate-bolo.

Estranho 04


Surpreendentemente, Um estranho no lago é um suspense em sua melhor definição. Tal fato fica comprovado quando um corpo é encontrado no curso d’água em que os amantes Franck e Michel se aventuram, mudando os rumos da história anteriormente calcada em sexo. Mais do que isso. Filmado de maneira simples, sem recursos escalafobéticos e rocambolescos, o filme chama atenção justamente pela criatividade na hora de contar essa trama, algo que difere e muito da overdose de CGI e enredos banais do cinemão nosso de toda sexta.


Para se ter uma ideia disso, não há nenhuma cena em estúdio (filmada em pouco mais de um mês, a película conta o período de dez dias corridos). Também não existe trilha sonora, nenhuma música, apenas o som das árvores, do vento e da água. Os atores não usaram maquiagem, nem cabeleireiro. O espectador fica literalmente no escuro durante algumas longas tomadas sem luz natural. Uma das cenas, é filmada em non-stop – são quatro minutos de agonia. Isso sem contar os momentos finais, em que… Bem, isso você, querido leitor, só vai descobrir quando assistir. Cola comigo nessa: prepare o fôlego e deixe o Instinto selvagem para o domingo que vem.


Estranho 05









UM ESTRANHO NO LAGO
(L’inconnu du lac, França, 2013). De Alain Guiraudie. Com Pierre Deladonchamps, Christophe Paou, Patrick d’Assumçao, Mathieu Vervisch e Jérôme Chappatte.
*****




Crédito das imagens: Cinefrance.com.br, uniFrance Films, Compartilhando.net, UOL Entretenimento Cinema e Lumière.

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3 respostas para Parceiros no crime

  1. Excelente retorno do LozEngelis! Fiquei com vontade de ver! Seus textos são demais, sou sua fã, mon cher! Hihihi! :***

  2. Bibi disse:

    Adorei!Quero mais críticas, dicas…. : )

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