Crônicas do LAX – Tão longe, tão perto

O Loz Engelis proudly presents Crônicas do LAX. A fórmula é simples: qualquer assunto, sem firulas, em fluxo de consciência e com mais de 140 caracteres. Com vocês, meu primeiro texto para o espaço: Eu não preciso de um tablet. Bem-vindos a bordo.




Você está tomando um drinque com os amigos em um barzinho. Você está bebendo e dançando na porta da festa. Você está fumando um cigarro na varanda do restaurante. Você está descendo do carro em uma quadra comercial. Você está voltando para casa de uma caminhada.





Eis que de repente, não mais que de repente, uma figura maltrapilha se materializa. O chinelo estropiado, as roupas em farrapos, o olhar envergonhado. A solução é dinheiro. Pouco, muito, tanto faz. Uma moeda de 50 centavos, um real, um montinho cheio das de dez e cinco. Sabe o que é, é que eu tô com fome, eu tenho que sustentar minha família, eu tenho uma doença terminal, eu quero mesmo é tomar uma cachaça. Depois do susto inicial, as pratinhas que tiram esse problema da frente. Boa sorte aí, amigo. Nossa, é tão triste a situação do Brasil, não é mesmo? Vou voltar pra minha vida, pro meu drinque, pro meu grupo de amigos, pra minha rotina, pra minha caminhada.


Aposto que todo mundo já passou por isso algum dia. Ou até mesmo todo dia passa por algo semelhante. É só botar o pé na rua.





Aí aconteceu uma coisa bem inusitada comigo. Posso falar com vocês um minuto?. Ih, lá vem. Conheço a história de trás pra frente. Começo a apalpar os bolsos. Quanto antes acabar, melhor. Um assunto interrompido. Constrangimento no ar. Será que ele não percebe que está incomodando? Com uma abordagem engraçadinha, mais uma dessas figuras excluídas chegou à roda. Papo vai, papo vem. Foi quando pra mim, justo o mais tenso do grupo, ele pediu. Me dá um abraço. E eu, sem graça de tudo, dei. Não satisfeito, pediu outro. Que abraço gostoso. Ele é fofinho, né? Falou mais um pouco. Se foi.





Depois do tal abraço, me senti mal. Me senti mal por ter me sentido mal. Uma coisa aparentemente tão banal ficou na minha cabeça. A vergonha. Um abraço em um mendigo, em um estranho. Peraí. O que eu tô dizendo? Foi um abraço em um ser humano. Uma pessoa. De carne e osso. Que nasceu. Que cresceu. Que talvez tenha feito escolhas erradas. Que talvez tenha entrado pelo cano. Que citou Nietzsche. Que me chamou com Zaratustra. Que é o refugo da sociedade. Que é aquele que todo mundo vira a cara quando passa. Que é aquele que nunca tem com quem conversar.


Todo dia nos deparamos com isso. Todo dia passamos por cima. Criados a pêra e Ovomaltine, com todas as oportunidades, jornal do dia na porta de casa, escola e faculdade particular, ideais ecológicos e lixo seco e orgânico, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Mas o que acontece naquele temido momento em que somos obrigados a confrontar nossa própria consciência?





Aprendi com a MTV que aids não se passa com toalha, mas ah, por via das dúvidas vou recusar a mordida do sanduíche que ele me ofereceu, dizem por aí que ele é positivo. O Brasil tem que defender seus territórios, a gente não pode desmatar as matas, pobres dos índios, mas índio não gosta de trabalhar, só quer ficar pelado e jogando bola. Eu fui na Marcha das Vadias, acho que o direito da mulher tem que ser defendido, ah, mas ela?, ela gosta de apanhar, né. Não larga o marido por nada. Tem mais é que levar porrada que nem aquela cantora lá e aquela outra atriz. Igual a questão do negro, sabe, super respeito, poxa, tadinhos, sofreram muito, mas toda hora essa de preconceito, sabe, vai estudar, cara, não tem emprego porque não procura. Me lembra essa coisa toda de gay, homofobia. Todo mundo é igual. Só que eu acho, assim, opinião pessoal, não vai sair na rua dando pinta, ninguém tem nada a ver com o que você gosta de fazer na cama, mas é sempre legal ter um amigo gay. Eles tem bom gosto, gostam de moda, de filme bom, de viajar. É que nem traveca. Tem uma que trabalha num salão aqui perto que ninguém diz que não é mulher. Deve dar pra todo mundo, porque viado, né, assim, na boa, só sabe fazer putaria. Sapatão já é outra conversa. Elas são fechadonas, não se depilam, saem por aí de peito de fora. Mas é um direito delas, né? Eu apoio super. De vez em quando até compartilho umas fotos no Face bem bonitas. A empregada lá de casa é como se fosse da família. Todo Natal a gente dá uma cesta básica de presente, tem até coisa da Bauducco. Você precisa provar o bolo de chocolate dela, é de dar água na boca. Só que dia desses ela chegou no serviço quase nove da manhã. Tá, tudo bem, ela tem cinco filhos e tem que pegar dois ônibus pra chegar lá em casa, mas é só acordar mais cedo, ué. Eu também sempre pego engarrafamento pra ir pro trabalho. Deus abençoe o ar condicionado. Falando em carro, aí dia desses eu tô entrando no meu e vem chegando um negão com uma roupa esquisita, atitude suspeita. Fechei o vidro, né. Hoje em dia a gente não sabe o que esperar de ninguém. Ele entrou num desses Ford novos. Sei lá. Alguma coisa tinha ali. Igual o cara que me pediu dia desses um dinheiro pra comprar leite pra filha. Porra, pra cima de mim? Esse povo não quer nada da vida. Não quer nada. Nada com nada.





O preconceito nosso de cada dia nos dai hoje cada vez mais ignorância.


E, às vezes, olha só, o feitiço pode ser quebrado com apenas um abraço.









Crédito das imagens: Urban Self-sufficientist, Joey Lawrence, Pile of photos e Homeschool connections.

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