Traídos pelo desejo



Uma menina de 13 anos escreve uma peça de teatro. A obra deveria ser encenada em um jantar de família mais tarde. Por motivos que fogem ao controle do destino, não o foi. Essa garota é Briony Tallis. Esperta demais para sua idade, inteligente demais para pouco tamanho, perspicaz demais para alguém que ainda não saiu dos cueiros, como bem se dizia antigamente.


“A peça – para a qual Briony havia desenhado os cartazes, os programas e os ingressos, construído a bilheteria, a partir de um biombo dobrável deitado de lado, e forrado com papel crepom vermelho a caixa para guardar dinheiro – fora escrita por ela num furor criativo que durou dois dias e que a levara a perder um café da manhã e um almoço”.


Briony Tallis é todo escritor. A solidão da página vazia. O barulho da máquina de escrever. A confusão de uma mente inquieta. Briony Tallis, simbolicamente, é aquele que escolheu escrever como meio de vida. Pode ser um jornalista, como eu, um romancista, um cronista e, quem sabe?, até um blogueiro, cibernética figura literária. Briony Tallis é a protagonista de Reparação. Este livro de Ian McEwan chegou à minha mesa de cabeceira por acaso. Não foi paixão à primeira vista, mas foi eterna – da minha estante ele não deve sair nunca mais.



Ian McEwan, o autor


Em Reparação, é Briony a responsável pelos acontecimentos descritos durante toda a narrativa. Na Inglaterra dos anos 1930, a garota esperava a visita dos primos – dois meninos, gêmeos, e Lola, um pouco mais velha do que nossa protagonista. A trupe encenaria a peça descrita antes. Curiosa, qualidade de praxe em qualquer criança que se preze, Briony Tallis observava, atenta, o mundo que a rodeava. Em uma tarde de verão, presenciou, por acaso, a uma cena curiosa. Sua irmã, Cecilia, despindo-se para buscar um vaso de estimação derrubado por acidente em uma fonte na propriedade dos Tallis enquanto era observada por Robbie Turner, filho de uma antiga empregada, bem quisto como um membro legítimo desse abastado clã. O olhar de Briony funcionava como faísca na palha seca.


“Quando a menina voltou à janela e olhou para baixo, a mancha úmida sobre o cascalho já havia evaporado. Agora não restava nada da cena muda ocorrida junto à fonte senão o que sobrevivia na memória, em três lembranças separadas que se sobrepunham. A verdade se tornara tão espectral quanto a invenção”.


Robbie confessa sua paixão secreta por Cecília somente para si, em seus mais reservados momentos. O desejo o consome. Esta onda de calor, uma luxúria ainda não explícita, toma forma em palavras, e, naqueles acasos que tão bem descrevem o arco do enredo das histórias, chega às mãos de Briony.


“Então, após alguns momentos de devaneio, com a cadeira inclinada para trás, em que ficou a pensar na página em que sua Anatomia tendia a se abrir nos últimos dias, recolocou a cadeira no lugar e, antes que conseguisse se conter, datilografou: ‘Em meus sonhos, beijo tua boceta, tua boceta úmida. Em meus pensamentos, passo o dia inteiro fazendo amor contigo'”.


É o primeiro passo para a mudança.


“Dentro de meia hora, Briony cometeria seu crime”.



Desejo e reparação, de 2007: a adaptação cinematográfica da obra literária


Dividido em quatro partes, o livro mostra diferentes pontos de vista para os mesmos fatos, que convergem, mais de 400 páginas depois, em um final emocionante, de arrancar lágrimas e soluços. A escrita de McEwan é primorosa. Detalhista ao extremo, o romancista não economiza páginas e páginas de belas paisagens e sentimentos íntimos.


Não sei onde li certa vez, pode ter sido em peça de Shakespeare, música de Elymar Santos ou em algum filme do Megapix, que nossa vida toda é moldada a partir de dois ou três dias específicos. Aqueles em que um instante muda tudo. Um ato. Uma palavra. Seria assim mesmo? O quanto de controle nós, nessa existência mundana, temos para conseguirmos mudar tantos rumos, tantos destinos? No caso de Reparação, o poder da literatura, o poder de contar histórias, escondido por todo o livro, explode em seu clímax. Percebemos que somos Briony. Só nós mesmos, ao deitar a cabeça no travesseiro, sabemos os pequenos crimes que carregamos por dentro.


“Como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com quem possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo”.








REPARAÇÃO
De Ian McEwan (2001). Tradução de Paulo Henriques Britto. 1ª edição. Companhia das letras. 444 páginas.

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2 respostas para Traídos pelo desejo

  1. Bruno L. disse:

    Há um tempo, comecei a ler a versão americana do livro, na versão pocket. Acabei tendo que largar, mas até o ponto em que li, achei bem interessante. Apesar desse estilo extremamente detalhista do autor me cansar um pouco, vc me motivou a procurar um tempo para retomar a leitura, já que gosto muito do filme tb!

  2. Bruno Santos disse:

    MARAVILHOSA DICA, Arthuru ❤

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