À flor da pele



Minha admiração por Pedro Almodóvar não é segredo para ninguém. Desde que, pequeno, assisti a Mulheres à beira de um ataque de nervos, fui conquistado, a goles de gazpacho, pela fórmula infalível daquele que viria a ser um dos meus cineastas favoritos: boas doses de humor e escatologia, diálogos brilhantes, fotografia invejável e personagens que transitam entre o ridículo e o dramático, entre a pantomima e o melodrama, entre o verossímil e o fantástico. Não foi por acaso que Almodóvar virou para mim até objeto de estudo acadêmico – minha monografia de conclusão do curso de jornalismo foi sobre as representações da diversidade sexual em quatro de suas obras mais emblemáticas sobre esta questão.





Vocês podem imaginar, então, o quão feliz eu fiquei quando descobri que Brasília receberia a mostra El deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar, que reúne a obra completíssima de Almodóvar, além de produções que o influenciaram (A malvada, Janela indiscreta, Noites de Cabíria, Pink Flamingos, entre outros), a exibição do documentário Tudo sobre o desejo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar e ainda filmes produzidas por ele por meio de sua produtora, a El Deseo, que comanda junto do irmão Agustín (poderão ser conferidos A espinha do diabo, Minha vida sem mim e até o brasileiro Casa de areia, por exemplo).


O CCBB Brasília recebe o festival a partir de hoje, 26 de julho, até dia 14 de agosto. A curadoria é da pesquisadora Silvia Oroz e do jornalista Breno Lira Gomes. Haverá também dois debates na programação da mostra: o primeiro, no dia 3 de agosto, é Pedro Almodóvar, o diretor, com participação de Breno Lira Gomes e do cineasta Aluizio Abranches, mediados pelo querido Ricardo Dahen, jornalista do Correio Braziliense, e o segundo, em 11 de agosto, A estética kitsch e a diversidade sexual no cinema de Pedro Almodóvar, com Silvia Oroz e o cineasta Luiz Carlos Lacerda. O belíssimo catálogo da exposição é um show à parte – o compêndio reúne textos de admiradores do diretor nas mais diversas áreas de atuação, entrevistas com atores e extenso material fotográfico.





Para tentar entender melhor a obra do cineasta, melhor começar pelo homem e suas referências. Nascido em Calzada de Calatrava, Espanha, em 1949, Almodóvar cresceu observando as mulheres de sua família, o que provavelmente lhe trouxe toda a sensibilidade e ironia necessárias para retratar o universo feminino, uma de suas marcas registradas. Foi na sala escura de cinema que Almodóvar encontrou o refúgio necessário para construir aos poucos seu universo genial de ideias.





Para dar vazão à sua criatividade excepcional, mudou-se para Madri em meados da década de 1970 e começou a realizar pequenos filmetes em Super-8 com baixíssimos orçamentos e participação dos amigos. Tornou-se, com o passar dos anos, um dos exemplares mais notórios do La Movida, movimento de contracultura hispânico que tomou conta de Madri após a queda do ditador Francisco Franco.





Foi com Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão que estreou oficialmente no mundo dos longas metragens em 1980. Daí, seguiram outras obras, algumas primas, outras pura experimentação. Almodóvar sagrou-se internacionalmente e hoje tem na estante dois Oscar, vários outros prêmios e a admiração de um mundo inteiro, em especial deste humilde admirador que vos escreve.





O Loz Engelis bateu um papo com Breno Lira Gomes, um dos curadores da mostra El Deseo, para tentar entender melhor quem é esse homem fascinante e porquê ele passou do status de marginal para nome sagrado na história do cinema contemporâneo.




O que o brasiliense pode esperar da mostra El deseo?


A principal característica da mostra El Deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar é que a paixão pelo cinema rodeia todos os filmes e a mostra em si. Almodóvar é um grande apaixonado pela sétima arte. Ele aprendeu cinema vendo os grandes mestres europeus e hollywoodianos. E quando pôde, pôs a mão na massa, experimentou através dos curtas em 8mm e nos primeiros longas em película 35mm. Em cada filme dele é possível perceber a presença de outros filmes, tão grande é sua admiração pelo cinema. A mostra El Deseo é uma oportunidade única para o brasiliense conferir de uma só vez toda a carreira de Almodóvar, do começo em estado bruto até a maturidade e consagração.




Alguns filmes de Almodóvar, principalmente os mais antigos, tem acesso muito limitado no Brasil. Houve alguma dificuldade para trazer todos os títulos da filmografia dela para a mostra?


Por sorte, todos os filmes dele foram lançados comercialmente por aqui. Acho que dos cineastas autores, independentes, somente ele e Woody Allen tem esse previlégio nos cinemas brasileiros. E ambos são garantia de público certo. Com exceção de três filmes (Mulheres à beira de um ataque de nervos, Ata-me! e A flor do meu segredo) conseguimos todos aqui no Brasil mesmo, com a Cinemateca do MAM e as distribuidoras. Mulheres à beira de um ataque de nervos, infelizmente, terá que ser exibido em DVD, pois questões judiciais impediram o empréstimo do filme. Ata-me e A flor do meu segredo serão apresentados em 35mm, assim como os outros filmes do diretor.




Como e quando começou sua admiração pela obra de Pedro Almodóvar?


O primeiro filme de Almodóvar que eu assisti foi De salto alto. A partir dali passei a procurar todos os seus filmes. Queria conhecer um pouco mais do seu cinema. Já conhecia a figura de Almodóvar, até por conta da repercussão de Mulheres à beira de um ataque de nervos, mas nunca tinha assistido nada dele. Ao sair do interior e me mudar para Belo Horizonte, tive a oportunidade de encontrar todos os filmes dele lançados em vídeo até então. Alugava dois ou três e assistia avidamente. O primeiro que vi no cinema foi Tudo sobre minha mãe, o meu preferido. Desde então, confiro todos na tela grande.




A carreira de Almodóvar parece se dividir em fases distintas. Como você avalia essa evolução do cinema dele em trinta anos?


Eu classifico o cinema de Almodóvar em quatro fases. A primeira, que vai de Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão até A lei do desejo, representa a fase experimental, do desbunde, da quebra de tabus, da grande vontade de um artista de se expressar. A segunda fase começa com Mulheres à beira de um ataque de nervos e vai até Kika, é quando o artista se torna pop, ícone de um país, passa a ser reconhecido e admirado em todo o mundo. A partir de A flor do meu segredo começa a terceira fase, o momento maduro de Almodóvar. Agora já reconhecido e dominando como poucos a arte cinematográfica, ele passar a fazer filmes menos “malucos e experimentais” e mais “adultos”, mas sem deixar de imprimir sua marca registrada: as cores fortes e a junção de todas elas. Essa fase termina com Abraços partidos. E acredito que uma nova se inicia com La piel que habito, onde, provavelmente, ele irá assumir de vez a realização de filmes de gênero.


***




Confira a programação completa dos filmes de Almodóvar que serão mostrados em El Deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar.




Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, 1980)





Três amigas – Pepi (Carmen Maura), Luci (Eva Siva) e Bom (Alaska) – desbravam a louca vida madrileña em uma jornada pontuada por drogas, sadomasoquismo e até mesmo um concurso de grandes falos.
















Labirinto de paixões (Laberinto de pasiones, 1982)





Riza Niro (Imanol Arias), filho do imperador do reino fantioso de Tirã, foge para Madri com medo da repercussão de um golpe de Estado em seu país. Ele se envolve com Sexília (Cecilia Roth), uma ninfomaníaca, e também com Sadec (Antonio Banderas), um guerrilheiro.
















Maus hábitos (Entre tinieblas, 1984)





A cantora Yolanda Bel (Cristina Sánchez Pascual) busca refúgio em um convento após a morte de seu namorado por overdose de drogas. Ela acaba descobrindo que o ambiente católico, comandado por um grupo de freiras tresloucadas, de santo não tem nada.
















Que fiz eu para merecer isto? (¿Qué he hecho yo para merecer esto?, 1984)





Carmen Maura interpreta uma dona de casa infeliz que tem que sobreviver a uma abstinência de remédios para dormir enquanto lida com os problemas de sua família nada convencional.
















Matador (1986)





O toureiro Diego (Nacho Martínez) e a advogada María (Assumpta Serna) tem algo em comum: só atingem o ápice sexual matando seus parceiros. Ele e ela, cada um a sua maneira, tentam reviver o clímax da tourada. Eles se apaixonam e vivem um amor doentio em que, ao fim, só poderá ter um sobrevivente.
















A lei do desejo (La ley del deseo, 1987)





Pablo (Eusebio Poncela) é um diretor de cinema homossexual que se envolve com um instável rapaz (Antonio Banderas). Junta-se a esse relacionamento conflituoso a irmã de Pablo, Tina (Carmen Maura), uma transexual que mudou de sexo no Marrocos para viver uma relação incestuosa com o próprio pai.
















Mulheres à beira de um ataque de nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988)





Inspirado pela peça de Jean Cocteau, A voz humana, que já havia aparecido brevemente em cena de A lei do desejo, Mulheres à beira de um ataque de nervos gira em torno de uma história aparentemente simples. Em um tempo sem e-mail, smartphones e afins, Pepa Marcos (Carmen Maura) precisa contar algo ao ex-amante Ivan (Fernando Guillén). Ao procurá-lo, ela embarca em uma jornada emocional que inclui uma amiga foragida da justiça por acobertar um terrorista xiita (María Barranco), o filho do ex-companheiro (Antonio Banderas) e sua companheira reprimida sexualmente (Rossy de Palma), uma advogada feminista mal encarada (Kiti Manver) e a ex-esposa débil de Ivan (Julieta Serrano).
















Ata-me (1990)





Antonio Banderas repete a parceria com Almodóvar nesta fita de 1990. Ele interpreta Ricky, um jovem recém saído de uma instituição psiquiátrica que rapta a estrela pornô Marina (Victoria Abril), iniciando-a em um jogo sexual de risco e prazer.
















De salto alto (Tacones lejanos, 1991)





A ligação entre Rebeca (Victoria Abril) e sua mãe Becky (Marisa Paredes) dá o norte à película. A personagem de Paredes retorna a Madri anos depois de ter abandonado a filha, enquanto Rebeca assume a morte misteriosa do marido, este ex-amante de sua mãe.
















Kika (1993)





Kika pode ser resumido de maneira sucinta como um samba do crioulo doido. A personagem título (Verónica Fórque), uma maquiadora, se vê as voltas com um falso morto (Àlex Casanovas), um americano charmoso (Peter Coyote), sua empregada lésbica (Rossy de Palma) que tem um irmão estuprador (Santiago Lajusticia), e por fim, com a apresentadora de um talk show mundo-cão chamada Andrea Caracortada, interpretada por Victoria Abril, que desfila na tela modelos assinados por Jean Paul Gaultier.
















A flor do meu segredo (La flor de mi secreto, 1995)





Marisa Paredes é a escritora Leo Macías, que alcança notoriedade ao escrever romances clichês sob o pseudônimo de Amanda Gris. Ela vive uma crise pessoal quando é abandonada por seu marido Paco (Imanol Arias), um militar insensível.
















Carne trêmula (Carne trémula, 1997)





Cinco histórias pessoais de perdas e danos se cruzam em narrativa que se inicia na década de 1970 com um simples parto dentro de um ônibus. Carne trêmula é um marco na carreira de Almodóvar, pois foi com essa fita que ele fez seu crossover internacional de maneira definitiva.
















Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, 1999)





Cecília Roth é uma enfermeira que trabalha numa unidade especializada em transplantes. No dia do 17º aniversário de seu filho, o rapaz é atropelado e morre, forçando Cecília a procurar o pai do menino (Toni Cantó) em Barcelona e revisitar suas raízes. Lá, reencontra a amiga Agrado (Antonia San Juan) e conhece duas mulheres que mudarão sua vida: a atriz Huma Rojo (Marisa Paredes) e a freira Rosa (Penélope Cruz). Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2000.
















Fale com ela (Hable con ella, 2002)





Centrada nos personages Marco (Darío Grandinetti) e Benigno (Javier Cámara), a história de Fale com ela dá destaque ao universo masculino e a aura de sensibilidade que o permeia. O primeiro enfrenta dificuldades para entender o estado de coma de sua namorada Lydia (Rosario Flores), toureira atingida durante um espetáculo. Ele se apoia no enfermeiro Benigno, que cuida com afinco de Alicia (Leonor Watling), depois que ela se envolve em um acidente de carro. Oscar de Melhor Roteiro Original em 2003.
















Má educação (La mala educación, 2004)





Fele Martinez e Gael García Bernal estrelam esta produção tida por muitos fãs de Almodóvar como um retrato quase autobiográfica do diretor. Na relação de amor e ódio em que vivem os personagens, imersos na filmagem de um longa, eles relembram os traumas que adquiriram em um internato católico nos idos de 1960.
















Volver (2006)





Penélope Cruz estrela a fita no papel de Raimunda. Ela mata o marido ao descobrir que ele tentou abusar de sua filha. Enquanto busca fugir das implicações do crime, ela tenta entender um fenômeno inexplicável: a volta de sua mãe (Carmen Maura) do mundo dos mortos.
















Abraços partidos (Los abrazos rotos, 2009)





Absorto em suas memórias, o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar), que ficou cego em um acidente de carro 14 anos antes, relembra do romance que teve com Lena (Penélope Cruz), a bela esposa de um milionário.
















Almodóvar volta aos cinemas ainda este ano com La piel que habito, retomando a parceria com Antonio Banderas.


















El Deseo – O apaixonante cinema de Pedro Almodóvar


CCBB Brasília. De 26 de julho a 14 de agosto.
Site oficial: http://www.buendiafilmes.com/mostraeldeseo
No Twitter: @mostraeldeseo
Facebook: Mostra El Deseo

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