Sobre meninos e lobos

Na última quinta-feira, 7 de abril, o Brasil testemunhou o massacre brutal dos estudantes assassinados no Rio – o dia em que a escola Tasso da Silveira, em Realengo, virou Columbine. Consternados com a tristeza, testemunhamos com pesar essas cenas de barbárie gratuita. Por uma trágica e infeliz coincidência, nesse mesmo dia eu finalizava as últimas páginas do livro Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver. Na obra, ficcional, uma série de cartas enviadas de Eva para Franklin. Eles são os pais do jovem Kevin, menino de 15 anos que executa seus colegas de escola à sangue frio em um ato planejado e calculista, que acontece numa quinta-feira, 8 de abril de 1999. Parece absurdo traçar esse paralelo entre vida real e ficção, mas saibam que, na modesta análise que presto ao livro nesse post, não busco de maneira alguma equiparar a tragédia das páginas a tragédia vista nos notíciarios, muito menos compará-las. Esse relato é de um ser humano envergonhado com os rumos do mundo que busca apenas tentar tirar um nó que lhe aperta o peito.



A autora de Precisamos falar sobre o Kevin, Lionel Shriver


Quando se é pai, ou mãe, não importa qual seja o acidente, não importa a que distância você se encontre e o quão pouco possa fazer para evitar, a desdita sempre vai parecer culpa sua. Você é tudo o que seus filhos têm, e a convicção deles de que você poderá protegê-los é contagiosa“.


Quando peguei o exemplar de Precisamos falar sobre o Kevin, a primeira coisa que me chamou atenção foi a capa. A imagem apresentada pelo livro, editado em português pela Intrínseca, é de impacto: uma figura adolescente vestida de jeans e camisa preta e com uma máscara sombria que lembra a de uma besta. É assim que somos apresentados a Kevin, antagonista dessa história. Em 463 páginas, a autora Lionel Schiver assume o lugar da mãe do rapaz, Eva, aquela que trouxe o mal ao mundo como o conhecemos. Escritora de guias de viagens e casada com Franklin, ela resolve ter um filho. A história desse menino é contada por meio de cartas que Eva manda para o marido e que não tem resposta. Sutil como um soco inglês direto na boca do estômago, Shriver, no papel de Eva, analisa os Estados Unidos, seus vícios e virtudes, apresenta questões amargas sobre a maternidade e o casamento e sobre a sociedade contemporânea. Rejeitado por mais de 30 editoras, Precisamos falar sobre o Kevin não tem medo de enfiar um dedo cheio de sal em todas as nossas feridas pequeno-burguesas.


Falemos um pouco sobre o poder. Na constituição política de uma casa, diz o mito que os pais têm uma quantidade desproporcional dele. Eu já não tenho tanta certeza. Os filhos? Eles podem nos dar muitos desgostos, para começo de conversa. Eles podem nos envergonhar, podem nos levar à falência e eu posso dar meu testemunho pessoal de que são capazes de nos fazer desejar nunca termos nascido. Que medidas tomar? Impedi-los de ir ao cinema. Mas como? Com o que sustentamos nossas proibições, se o jovem continuar, belicoso, a caminho da porta? A dura verdade é que os pais são como governos: mantemos nossa autoridade através da ameaça, explícita ou implícita, de força física. Uma criança faz o que nós lhe dizemos para fazer porque – para ir direto ao ponto – podemos lhe quebrar o braço“.





Ao concluir a última página do livro, na mesma noite da tragédia de Realengo, nem precisei ligar a televisão. Fui dormir com o coração pesado. A questão principal nem Shriver, nem ninguém conseguirá responder e vai continuar doendo. Por que?


A última coisa que queremos admitir é que o fruto proibido que estamos mordiscando desde que chegamos aos mágicos vinte e um anos de idade é a mesma maçã farinhenta que enfiamos na lancheira dos nossos filhos. A última coisa que queremos admitir é que as brigas no playground pressagiam perfeitamente as maquinações da sala da diretoria, que nossas hierarquias sociais são meros prolongamentos da escolha de quem será o primeiro a integrar o time e que os adultos também acabam divididos em velentões, gorduchos e chorões. O que há para uma criança descobrir?“.


PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN
De Lionel Shriver (2003). Tradução de Beth Vieira e Vera Ribeiro. 2ª edição. Intrínseca. 463 páginas.

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Uma resposta para Sobre meninos e lobos

  1. Cris disse:

    Li o livro também, fiquei impressionada pela maneira corajosa que a autora vai descrevendo o que é o casamento, a maternidade, o amor/ódio pelos filhos, etc. Sem meias palavras, ou apresentando desculpas, a personagem vai nos colocando à frente de um mundo muito real, de sentimentos reais.
    Fiquei muito fã da autora, e assim como você, não quero comparar a ficção à tragédia, mas acho que ler o livro nos faz mais conscientes deste mundo que encaramos com horror (e às vezes com amor).
    beijos

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