La vita amara

Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira“.
Anna Karenina, de Leon Tolstói (1873).




A história dos italianos da família Gucci parece estar associada a bandeira de seu país de origem. Tal e qual a flâmula transalpina, a história deste clã teve o verde do dinheiro e o vermelho do sangue em sua história, mas a paz associada a cor branca não os agraciou enquanto eles transformavam um modesto negócio familiar em um império da moda e do luxo. A jornalista Sara Gay Forden conta essa saga em detalhes no livro Casa Gucci – Uma história de glamour, cobiça, loucura e morte, que acabei de ler recentemente.


Casa Gucci tem início com o assassinato de Maurizio Gucci. Ele, o último membro da família a controlar a empresa, foi baleado em uma manhã aparentemente normal em março de 1995, perto de seu novo escritório em Milão. A partir deste fato, Sara Gay Forden revive a trajetória dos Gucci, marcada a ferro e fogo por escândalos, controvérsias e brigas de família dignas de novela de Benedito Ruy Barbosa.



A família Gucci em tempos de glória: da esquerda para direita, Giorgio, Maurizio, Roberto, Aldo, Alessandro, Paolo, Elisabetta, Patrizia, Guccio e Rodolfo (à frente)



Frenesi em frente à Gucci – no detalhe, uma quase incógnita princesa Grace de Mônaco


Foi o patriarca da família, Guccio Gucci, que deu início ao negócio na década de 1920, em Florença, com uma firma simples, fabricante de produtos em couro. Os áureos dias da Gucci tiveram início quando Aldo, o filho do meio de Guccio, resolveu levar a empresa de um âmbito doméstico a uma esfera global, abrindo filiais na América e reiterando perante o planeta que a moda italiana era não só sinônimo de tradição, como também de qualidade.



Guccio Gucci, o patriarca


Nesse período do glória, Guccio e Aldo elevaram o nome da marca com produtos que tornaram-se ícones quase inexoráveis da moda como um todo. A bolsa com alça de bambu, da década de 1940, é um exemplo, assim como os mocassins com o monograma GG e a bolsa especialmente feita para a ex-primeira dama Jackie Onassis, conhecida como Jackie O., nos anos 1970.



A bolsa com alça de bambu



Mocassins Gucci: símbolo de status



A imortal bolsa Jackie


O controle de Aldo na companhia, tempos depois, começou as disputas – primeiro a dele com o irmão Rodolfo, um ex-ator charmoso e pai de Maurizio, e logo com o próprio filho Paolo, que exigia maior controle e possibilidades de crescimento criativo. Quando Rodolfo faleceu no início da década de 1980, Maurizio ganhou direito a metade da Gucci e os embates com Aldo e os primos começaram. A guerra foi pontuada por tréguas de abraços e beijos efusivos e embates que envolviam pendengas judiciais, congelamento de bens e até mesmo bolsas, jogadas da janela das mais chiques lojas Gucci em rompantes de raiva.


A morte de Maurizio, que vendeu a Gucci para investidores logo antes de ser assassinado, virou a página da companhia. A dobradinha Domenico De Sole como CEO da marca e Tom Ford como estilista das coleções deu certo. Porém, seguindo o fluxo de outras empresas de moda, atualmente a Gucci faz parte do inventário da holding francesa PPR, que faturou a companhia após longo embate contra a LVMH.



Campanha da Gucci em 1995: Tom Ford muda o perfil da marca para salvá-la



A polêmica campanha do g-string, também orquestrada por Ford


A narrativa não linear de Casa Gucci por vezes confunde, misturando os aspectos relativos à morte de Maurizio com o nascimento e desenvolvimento da companhia por meio da história. A parte pessoal é de longe a mais interessante e é desenvolvida em caráter quase folhetinesco. O livro, no entanto, perde um pouco de sua força ao se alongar no juridiquês e descrever com minúcias intermináveis os jogos do mundo dos negócios, incluindo compra e venda de ações, nascimento de novas companhias e muitos personagens reais como advogados, sócios, etc.


Em meio ao turbilhão financeiro da Gucci, a escritora Sara Gay Forden descreve a vida em Maurizio e sua vida pessoal, focando-se no casamento deste com Patrizia Reggiani, descrita como uma mulher ambiciosa e controladora. Após um divórcio conturbado, Patrizia lutou pelos direitos que achava que tinha na fortuna dos Gucci, alegando que precisava manter o nome da família e o status financeiro para bem estar das filhas do casal, Alessandra e Allegra.



Maurizio e Patrizia antes dos escândalos


Os conflitos com o ex-marido tornaram-se mais intensos e uma trama diabólica foi traçada para a destruição dele. Em 1998, três anos após o assassinato de Maurizio, Patrizia, conhecida na imprensa italiana como “A viúva negra”, sua amiga Pina Auriemma, “A bruxa negra”, o atirador Benedetto Ceraulo e o motorista Orazio Cicala foram condenados pelo crime (Patrizia, Pina e Orazio com penas de mais de 20 anos e Benedetto sentenciado a prisão perpétua). Há rumores de que o livro Casa Gucci será adaptado para o cinema em breve, enfocando a relação de Maurizio e Patrizia – Ridley Scott (Blade Runner: o caçador de andróides, Thelma & Louise e Gladiador) estaria na direção e Leonardo DiCaprio e Angelina Jolie interpretariam o casal.





CASA GUCCI – UMA HISTÓRIA DE GLAMOUR, COBIÇA, LOUCURA E MORTE
De Sara Gay Forden. Tradução: Gloria Cunha. 1ª edição. Editora Seoman. 486 páginas.

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