Brasil, mostra a tua cara!



Nasci nos anos 1980, antes do boom dos Nintendos e similares e quando a internet em si ainda era coisa de ficção científica. A criançada, quando não se sujava brincando embaixo do bloco, tinha a televisão como babá eletrônica. Eu era um desses. Brincava com a Xuxa, ria d’Os Trapalhões e trocava ajudar nas tarefas domésticas só pra poder assistir às mulheres-moranguinho do Coquetel (Alguém mais lembra desse clássico do pornô softcore lúdico?). Novela pra mim era tudo. Comprava até a Contigo! toda semana pra ler resumo. Assisti de camarote a momentos antológicos da TV, antes do início do império do politicamente correto. Mas, até hoje, uma das minhas maiores frustrações foi ter perdido a exibição de Vale tudo, quase O poderoso chefão das soap operas nacionais, em 1988. Mais de 20 anos depois, minha preces foram atendidas pelo canal Viva, que começou a repetir a novela de segunda a sexta desde o último dia 4. Como nada na vida é do jeito que a gente gosta, os espertalhões exibem Vale tudo no infame horário de 0h45, com reprise ao 12h. Acho que vou começar a estocar café.





Começou assim: Raquel Acioli, interpretada por Regina Duarte, sai de São Paulo rumo a Foz do Iguaçu com a filha. Lá, vive tranquila até a menina completar 21 anos. A garota, mequetrefe e alpinista social da pior espécie, após a morte do avô, vende a casa que está em seu nome e se manda pro Heow de Xhanheyro (leia-se Rio de Janeiro) para tentar ganhar a vida numa boa, numa nice. A cã atende pelo nome de MARIA-DE-FUCKIN’-FÁTIMA e é vivida por Glória Pires. Numa jogada que ainda não assisti, o destino dessas personagens vai se cruzar com a família Roitman, cuja matriarca, Odete (Beatriz Segall), controla uma grande multinacional. A velha também é o diabo em forma de gente, borrifado com colônia francesa e cheio de laquê na cabeleira. Preconceituosa e esnobe, Odete Roitman não poupa esforços para manter sua posição social.








Tô viciado, repito, VICIADO na novela. E estamos indo rumo ao terceiro capítulo apenas. A questão é que Vale tudo constava nas listas de melhores novelas da história, nos tops momentos marcantes e sempre atraiu minha curiosidade. Mesmo sem ter assistido, sabia de cor e salteado quem matou Odete Roitman, referência em vilania e mau caratismo folhetinesco.


É uma delícia assistir aos capítulos porque neles as pessoas fumam, bebem, falam de assuntos cabeludos, sem a influência de Ministério, Estatuto e essas coisas que podam a arte em nome da moral e dos bons costumes (APÁPORRA). Curioso é ver grandes nomes da TV com muito menos rugas, sem maquiagem e com os dentes e narizes “originais”. E o figurino? Gente, o povo de Vale tudo podia sair direto da novela e ir pra Play! Nego PESANDO A MÃO nas ombreiras tipo futebol americano, shorts jeans, Ray Bans de onça e POCHETES, CARALHA. Tudo tirado tim-tim por tim-tim das páginas da revista Tomorrow. Tá boa, Solange Duprat?



Mas a gente ainda vai se encontrar muito em breve. Porque eu quero te ver atrás das grades. É na cadeia que eu vou te ver, entendeu, sua infeliz? NA CADEIA! NA CADEEEEEEEEEIA! NA CADEEEEEIA!


Vale tudo também foi pioneiro e ousou ao retratar um casal homossexual, Laís (Cristina Prochaska) e Cecília (Lala Deheizelin), coisa raríssima na época (ao contrário de hoje que, pra parecerem moderninhas, as emissoras socam as bees nas novelas tipo cota de vestibular). Outro aspecto importante foi tratar o alcoolismo como um assunto sério, por meio da musa, the one and only, Heleninha Roitman (Renata Sorrah). Com o advento do YouTube, todo mundo pôde conhecer a bonita em suas noitadas de mambos calientes e amnésias (Eu quero saber aonde está o seu marido!).








Em um Brasil pós ditadura militar e assolado pela inflação e violência urbana, Vale tudo, por meio da autoria de Gilberto Braga, jogou a merda toda no ventilador. Em perspectiva de novela, apresentou personagens dúbios, nem tão bons, nem tão ruins: valia de tudo mesmo para subir na vida (mesmo que fosse usando o pescoço dos outros como escada). Em suma, a obra abordou o jeitinho brasileiro, a falta de perspectiva e aspectos diversos que povoam nossa existência no maior país da América do Sul. Por melhor que seja no segmento das novelas, Vale tudo dá uma pontinha de tristeza no coração – infelizmente, mais de 20 anos depois de sua exibição, ainda é bastante atual.

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3 respostas para Brasil, mostra a tua cara!

  1. Diogo Lins disse:

    MEU DEEEUS, a melhor parte do post é, sem sombra de vúvidas: NA CADEIA! NA CADEEEEEEEEEIA! NA CADEEEEEIA!“ shuashushsua =)

    Sempre com posts mto mto bons heim nego, tô só ansioso pro post do ano: #BritneyOnGlee

    =*

  2. Dalila Góes disse:

    Coisa linda. Toca um mambo bem caliente!

  3. Cris disse:

    Também fui criada pela TV e novela, assisto desde que era tudo era em preto e branco 😉
    E sobre Vale Tudo, quem não queria ter o cabelo e o charme da Lidia Brondi?
    Heleninha Roitmann ainda hoje é denominação pra quem enche a cara!
    Enfim, um crássico!
    beijos

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