Teoria da conspiração

Eu não sou eu: vós não sois ele ou ela:
Eles não são eles.

Evelyn Waugh, Brideshaw Revisited

Cansado de me decepcionar com adaptações cinematográficas medíocres de livros muito bons, resolvi tentar o caminho inverso – primeiro o filme, depois o livro. As vezes me decepciono com a sétima arte, outras com a literatura, mas, raramente, ressalto, consigo um equilíbrio perfeito entre os dois. Foi assim com, por exemplo, Anotações sobre um escândalo, que citei aqui, O silêncio dos inocentes e minha última dobradinha, O escritor fantasma, filme de Roman Polanski (Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, by the way) e O fantasma, obra de Robert Harris.








Na fita de Polanski, interpretado por Ewan McGregor, e na obra de Harris representado em primeira pessoa, é a figura de um ghost writer que norteia a história. Um ghost writer, ou escritor fantasma, nada mais é do que aquela pessoa que faz o trabalho intelectual “braçal” enquanto outras colhem os créditos – seja escrevendo autobiografias de terceiros, elaborando discursos ou projetos para políticos e personalidades ou no contexto jornalístico em geral (acreditem – até eu, no modesto patamar que ocupo no contexto social, também sou escritor fantasma de muito marmanjo).


O “fantasma” (que curiosamente não tem seu nome revelado nem no filme, nem no livro) é chamado para escrever as memórias do ex-primeiro ministro britânico Adam Lang, quando seu predecessor na tarefa aparece morto numa praia em Martha’s Vineyard, ilha no estado de Massachusetts. Em meio à guerra contra o terrorismo e a acusação do Tribunal Penal Internacional contra Adam pela autorização de tortura contra quatro suspeitos, o fantasma começa a descobrir uma teia de segredos e conspirações.





No filme, a atmosfera tensa é dada principalmente pelas locações (Londres e Martha’s Vineyard), castigadas por um inverno chuvoso. Pode-se traçar um paralelo óbvio com o diretor Roman Polanski, acusado de ter estuprado uma menor de idade na década de 1970 e, desde então, exilado dos Estados Unidos (em O escritor fantasma, as cenas que representavam os EUA foram todas filmadas na Alemanha), tanto na figura do supostamente injustiçado Lang, quanto na do “fantasma” preso no claustrofóbico universo político. No mais, Ewan McGregor (Ai, Ewan!) simboliza o escritor de maneira brilhante, um solitário outsider que cai de paraquedas no meio de uma confusão federal. Nem a canastrice de Pierce Brosnan como Lang ou a de Kim Cattrall como Amelia, uma secretária cabo-de-vassoura-na-bunda, tiram o louvor da produção. De tão bons que são, dá pena de ver os créditos subindo ou de fechar a última página. Nada que um botão de rewind ou uma folheada de volta não curem.





O ESCRITOR FANTASMA
(The ghost writer, Alemanha, 2010). De Roman Polanski. Com Ewan McGregor, Pierce Brosnan, Olivia Williams, Kim Cattrall, James Belushi, Timothy Hutton e Tom Wilkinson.
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O FANTASMA
De Robert Harris (2007). Tradução de Fabiano Morais. Editora Record. 318 páginas.
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