Perdas e danos



Nova York, um dia qualquer, sete da manhã. Um elevador abre as portas. De dentro dele, uma jovem de cabelos negros, aparentemente desesperada, sai correndo em direção à rua. Esbarrando nos transeuntes, ela tenta fugir de algo, ou de alguém. O sobretudo verde musgo não é suficientemente grande para disfaçar os machucados. O rosto da moça está coberto de sangue. Corta para seis meses antes.


A cena descrita acima abre o epísodio piloto de Damages, atualmente a melhor série de drama em cartaz na TV. Um programa sobre advogados, mas que em nada se parece com seus contemporâneos Boston legal, Law and order e etc. Para falar a verdade, em três temporadas, o espectador mal chega perto de um tribunal, veja só. Queridinha dos críticos e da audiência, a série traz inúmeros diferenciais em seu enredo para seduzir os espectadores a cada episódio que passa.





Depois da introdução de tirar o fôlego, o episódio piloto nos apresenta aos pouco os personagens do enredo, a essa altura já um mistério. A advogada Patty Hewes, brilhantemente interpretada por Glenn Close (que já ganhou o Globo de Ouro e o Emmy pelo papel), é uma bem sucedida profissional, dona de um dos maiores escritórios do ramo e responsável por processos milionários. A chegada da jovem Ellen Parsons (Rose Byrne), logo aliciada como a nova protégée da Hewes & Associates, mudará por completo a vida das duas mulheres.


Parsons é idealista, cheia de moral e politicamente correta até a medula, enquanto Patty, já acostumada à luta diária da selva de concreto, não leva desaforo pra casa e defende sua clientela sem se importar com o que tem de fazer. Juntas elas unem forças para punir Arthur Frobisher, presidente de uma grande empresa que leva uma bolada e deixa seus funcionários a ver navios. Nesse meio, os conflitos pessoais das personagens misturam-se ao enredo: o namoro quase a distância entre Ellen e o médico David (Noah Bean), a tentativa de ascensão de Tom Shayes (Tate Donovan) no escritório e a conturbada vida familiar de Patty. Poderia ser mais um seriado sobre as agruras da vida contemporânea (Oh, não!), conciliar a vida profissional com a pessoal, yada, yada, yada. Mas o flashforward, que em nada tem a ver com os recursos picaretas de uma série sobre uma certa ilha no Pacífico, faz-se ecoar durante os episódios, não nos deixando esquecer que o buraco é bem mais embaixo.





O grande mérito dos criadores e produtores, Daniel Zelman, Glenn Kessler e Todd A. Kessler, é não deixar a história tranformar-se em duelinho medíocre bem X mal, daquele tipo que a esmagadora audiência puritana norte-americana adora. Patty não é uma vilã mexicana, tampouco uma heroína do tipo Sinhá Moça. Em outro rumo, Ellen, que começa a série em um estado permanente de quase demência, mostra as garras quando acuada. Os mistérios que permeiam Ellen e Patty criam cliffhangers (expressão que ilustra o clímax do episódio) surpreendentes, capazes de deixar o mais sério dos espectadores roendo as unhas de ansiedade.


Obviamente, Glenn Close rouba a cena e sem ela, talvez, o programa não alcançaria nem metade de seu sucesso. Ela engrossa o coro de atores mal aproveitados no cinema e que engordam os contra-cheques na telinha da TV (só para citar alguns, em Damages participam Marcia Gay Harden, Ted Danson, William Hurt, Željko Ivanek, Lily Tomlin, e outros). A exemplo de Alex, a bunny boiler de Atração fatal, um dos papeis mais marcantes de Close, Patty Hewes fuzila com os olhos e não precisa abrir a boca e dizer um ‘ai’ para meter medo, mas, mesmo assim, consegue-se enxergar nela uma boa dose de bondade e vulnerabilidade. Em certo momento deste episódio piloto, Patty divaga questões com um advogado e confessa que é pisciana, assim como eu, o blogueiro que vos escreve. Agora, sim, tudo faz sentido.





DAMAGES
Atualmente na terceira temporada. Primeiro e segundo anos da série disponíveis em DVD. Criada por Daniel Zelman, Glenn Kessler e Todd A. Kessler. Com Glenn Close, Rose Byrne e Tate Donovan.
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2 respostas para Perdas e danos

  1. Renata disse:

    Realmente muita gente fala bem da série, do roteiro e do elenco, mas vou assistir só pq vc falou aqui no lozengelis.

  2. É boa demais, Renata. Vai por mim. Você sabe que eu não sou igual a aqueles maníacos (eu sei que vocês estão lendo), que acham todas as séries boas. HAHAHAHA. Bruno Jax mode: ON.

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