Terror minimalista



Polêmica: eis um adjetivo que vem sempre associado ao cineasta Lars Von Trier. Classificá-lo só como controverso é dizer o mínimo. Diretor de filmes como Os idiotas, Dançando no escuro e Dogville, o dinamarquês marcou seu nome na história do cinema por ousar em suas narrativas pouco convencionais. Ele é um dos mentores do movimento Dogma 95, que estabeleceu uma série de regras no modo de fazer filmes – tal e qual um Glauber Rocha da Escandinávia, é adepto da câmera na mão e ideia na cabeça. Ano passado, ele resolveu investir em um filme de horror, na direção e roteiro. Porém, em vez de tomar o caminho fácil e tentar emplacar um blockbuster no topo da lista de bilheterias, talvez refilmando aqueles sucessos japoneses com crianças mediúnicas e uma loirinha qualquer de garganta potente, Von Trier desenvolveu um trabalho completamente inovador e autoral. O nome dele é Anticristo.





O mote é relativamente simples: um casal que perde o filho resolve superar o luto e enfrentar seus maiores medos. Os personagens não têm nome. Ele é interpretado por Willem Dafoe e ela por Charlotte Gainsbourg. O filme é dividido em quatro capítulos, um epílogo e um prólogo. Nos primeiros minutos, Von Trier mostra, de maneira sutil, a morte do garoto, que pula da janela enquanto seus pais distraidamente transam de maneira selvagem. Filmada em preto e branco, essa belíssima passagem é toda ao som da ária Lascia ch’io pianga, da ópera Rinaldo, de Georg Friedrich Händel.





Vivendo a dor da perda, ele e ela resolvem voltar à cabana onde passaram bons e maus momentos, o Éden, na tentativa de dar a ela, Gainsbourg, um sentido para continuar. Carregado de simbolismo e mensagens não tão subliminares assim, o resto do filme perturba sem mostrar nenhuma porta se abrindo sozinha, espectros fanfarrões ou serial killers mascarados. Os fantasmas da mente são aqueles a quem os dois temem – a natureza (a igreja de Satã, segundo ela), os animais, a culpa, e os sentimentos simbolizados como os três mendigos (a dor, o caos e o desespero). Aliados a fotografia claustrofóbica de Anthony Dod Mantle, Dafoe e Gainsbourg vivem essa agonia aos poucos, sem um clímax aparente. O sexo é usado de maneira gráfica e desconfortável em doses homeopáticas e impactantes.





Tentei me manter imune às críticas e comentários, já que ultimamente eles têm servido somente para me desestimular ainda mais com relação aos filmes em cartaz. Talvez por isso, tenha esperado a poeira baixar para me dedicar a essa experiência. Claro que, em meio ao bombardeio de informações cibernéticas, foi quase impossível fugir do burburinho. Captei algumas coisas de pé de ouvido e sabia que não seria fácil embarcar na jornada de Von Trier pelos sortilégios de mentes inquietas. Confesso que não estava preparado para o que iria encontrar. Não recebi somente uma aula de como fazer um filme de terror diferente, mas uma lição, inquietante e perturadora, do que é cinema.








ANTICRISTO
(Antichrist, Dinamarca/Alemanha, 2009). Direção: Lars Von Trier. Com: Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg. Em DVD.
****


PS: Para quem não sabe, Charlotte Gainsbourg, que interpreta “ela” em Anticristo, também é cantora. Filha de Serge Gainsbourg e de Jane Birkin (aqueles mesmo de Je t’aime moi non plus), Charlotte possui três álbuns em sua discografia. O mais recente, lançado este ano, chama-se IRM, sigla em francês para exames de ressonância magnética. Explica-se: após um acidente de esqui aquático, a cantora/atriz precisou de cirurgia cerebral e de inúmeros exames do tipo. Os barulhos da máquina a inspiraram a criar um ritmo único na companhia do já consagrado Beck, seu parceiro na empreitada. Charlotte também emprestou a voz para a faixa What it feels like for a girl (2001), de Madonna – o monólogo Girls can wear jeans and cut their hair short… foi retirado do filme The cement garden (1993).



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3 respostas para Terror minimalista

  1. (Bruno) Lourenço disse:

    Primeira vez que deixo comentário aqui, mas acho que nem preciso dizer quão boa e envolvente é a sua forma de escrever, né, sr. jornalista? Ah, a quem estou enganando, preciso sim: parabéns por esse dom!
    Enfim, gostei de Anticristo, mas confesso que minha mente limitada ficou sem entender algumas passagens, principalmente a cena final. Me diga sua interpretação depois!
    “Chaos reigns.”

  2. Ebaaaa! Adoro descobrir esses meus leitores “secretos”. He-he. Pois pode comentar sempre, viu? Eu adoro e respondo.

    “Anticristo” é realmente difícil e creio que eu nem tenha entendido direito. Vai saber o que se passa na mente desse maluco do Von Trier. O que me chamou realmente a atenção é como ele mostra, de maneira proposital ou não, uma realidade diferente da que estamos acostumados no cinema de hoje.

    Comentaremos depois nossas interpretações.

    😉

  3. @scpedro disse:

    Só tive a chance de ver esse filme esse final de semana, oq como tu mesmo disse foi bom, já q pude fugir/esquecer das coisas q foram ditas sobre o filme.

    Como todo filme do Von Trier, logo nas cenas iniciais me pergunto oq me faz sempre voltar a procurar os filmes q esse diretor faz. Resposta essa q sempre vem no final de cada película: “A maneira inusitada de contar uma história simples, tornando ela única, incomparável e indigesta”.

    Lendo os comentários sobre a cena final, me deparei com minha própria interpretação: tudo oq ‘ele’ fez foi uma jornada, onde ‘ele’ se deparou com os 3 mendigos, para no final encontrar a redenção. Qdo alcançamos a redenção é q percebemos q não estamos sozinhos nos nossos traumas, estávamos “cegos” para os problemas alheios, concentrados em nós mesmos… e só ao alcançar a redenção, é q percebemos q não somos os únicos a chegar lá.

    Ou não.

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