Pássaro ferido

Depois de tempos preparando-me psicologicamente, eis que uma segunda-feira um tanto cinzenta tornou-se o dia ideal para uma experiência emocional. Visitei minha videoteca velha de guerra e me rendi ao filme Piaf – Um hino ao amor, cinebiografia da lenda da música francesa Édith Piaf. A demora era justificada, afinal, eu já sabia por alto o turbilhão a que seria exposto. Sim, pois se há um tom irônico na vida, foi o deste lançamento ser traduzido nos Estados Unidos como La vie en rose (A vida em cor-de-rosa), baseando-se, obviamente, num dos maiores sucessos de Piaf (em contrário do original em francês, La môme, pequeno pássaro, como era conhecida). Na paleta de cores da vida de Édith Piaf, é dificil imaginar que ela pudesse ter usado outra tonalidade que não o negro, tamanha a quantidade de tragédias e infortúnios que sofreu em breves 47 anos de vida.





Nascida em 1915, em Paris, Edith Gassion já deu as caras no mundo comendo o pão que o diabo amassou: foi abandonada pelos pais, maltratada pela avó materna, entregue a outra avó cafetina e ficou cega por algum tempo devido a uma inflamação. Crescendo na cena noturna parisiense das décadas seguintes, se entregou à boêmia até ser descoberta, trocando músicas por alguns trocados. Daí, envolveu-se em escândalos, teve alguns amores e experenciou perdas inimagináveis. Tudo isso conquistando o mundo com sua voz rouca e recheada de emoção. Piaf faleceu no início da década de 1960, em decorrência de complicações de um câncer no fígado.





Sem desmerecer quaisquer outros aspectos, mas a grande responsável pelo sucesso do filme tem nome, sobrenome, faz biquinho e tudo mais: é a atriz Marion Cottilard, ganhadora do Oscar pelo papel. A maneira com que ela personifica Piaf é impecável e até mesmo assustadora, por assim dizer. Não é somente a maquiagem, que retirou e adicionou décadas ao rosto da francesinha charmosa, nem somente o porte curvado e frágil, característicos de Piaf e que Marion incorporou, ou nem ainda as nuances e oscilações da voz e sotaques – é praticamente uma conexão espiritual que poucas vezes testemunhei em meu histórico cinematográfico. Marion Cottilard É Edith Piaf, pelo menos nas duas horas de projeção de Piaf – Um hino de amor.





A narrativa não-linear por vezes deixa o filme arrastado e cansativo, porém, Marion sem dúvidas é a o prumo deste navio. Ao fim, já debilitada, entoando uma das maiores e melhores canções de seu repertório, ela, Marion/Piaf, cambaleante pelo peso da doença e da idade, afirma com brilho nos olhos: Non, je ne regrette rien. Não, eu não me arrependo de nada. E assim, surpreendentemente, Piaf – Um hino ao amor torna-se uma celebração da vida.





PIAF – UM HINO AO AMOR
(La môme, França, 2007). De Olivier Dahan. Com Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner e Gérard Depardieu.
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