Das vísceras coração

Há apenas algumas semanas, um domingo ficou marcado na memória de muitos – era a grande final do Campeonato Brasileiro. Flamengo ganhou, Coritiba caiu. Same old, same old. Pendurados em suas janelas, os torcedores mais afoitos urravam palavras incompreensíveis. O choro contido de vitória (e de derrota também) lavou a alma de muitos deles. Gritos e abraços de alegria.


Acho que é a mesma sensação que eu tenho ao assistir um novo filme do cineasta Pedro Almodóvar. Neste mesmo domingo, quietinho no escuro do cinema (apesar de cercado por eventuais babacas – “Que filme nada a ver, véi”), me senti no Maracanã. Acreditem: Almodóvar é a minha final de Copa do Mundo. O espanhol está atualmente em cartaz com a produção Abraços partidos.





Nesta mais recente película, Almodóvar envereda-se por um clima denso, explorado em sua fase madura dos anos 2000, e desta vez com quê de noir. Entretanto, ao contrário das produções deste gênero cinematográfico (que atingiu seu ápice nas décadas de 1940 e 1950 nos EUA), Abraços partidos não possui grandes mistérios policiais, detetives canastrões e mocinhas dissimuladas em seu enredo. À sua maneira, claro, Almodóvar recheia a fica com emoções catárticas, quase sempre pintadas em cores fortíssimas.





Ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante este ano por Vicky Cristina Barcelona, a bela Penélope Cruz toma as rédeas da produção mais uma vez (é a quarta colaboração dela com Almodóvar). Ela é a responsável por trazer à tona uma das marcas registradas do espanhol: a figura feminina como o norte, de maneira direta ou indireta, da narrativa.





A história tem início em 1994. Penélope interpreta Lena, uma secretária que leva uma vida difícil – enquanto luta para conseguir ajudar financeiramente os pais, faz programas à noite. Numa dessas ocasiões, acaba “encontrando-se” com seu patrão, o milionário Ernesto (José Luis Gómez). Ao casar-se com ele, acaba achando a vida high society muito vazia e logo se interessa por um projeto em particular: tornar-se atriz. É assim que ela conhece o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar) e apaixona-se perdidamente, transformando a obra em um confuso quebra-cabeças que oscila entre a felicidade e a dor, o medo e a paixão, o passado e o presente.





Ao subirem os créditos, quase não dá para acreditar que Abraços partidos saiu da mesma cabeça que criou filmes tão diferentes e absurdos como Labirinto de paixões, Maus hábitos e Kika, por exemplo. Creio que o meu fascínio consegue ser maior, já que vem de bem longe. Desde pequeno, quando assisti Mulheres à beira de um ataque de nervos, minha primeira incursão no universo nonsense de Almodóvar, fiquei hipnotizado pela maneira como seus filmes, por mais sem pé nem cabeça pareçam, fazem sentido.


No fim do curso de jornalismo, a ficha caiu como um todo, já que ele foi o tema principal do meu estudo de conclusão. Acho que esse fascínio pode ser resumido com uma frase do próprio cineasta, imortalizada no livro Conversas com Almodóvar, de Frédéric Strauss (que tive o imenso prazer de entrevistar uma vez): “O que se concebe como normalidade esconde, sem dúvida, o que de mais perverso existe”. E que fechem-se as cortinas.





ABRAÇOS PARTIDOS
(Los abrazos rotos, Espanha, 2009). Direção: Pedro Almodóvar. Com: Penélope Cruz, Lluís Homar, José Luis Gómez, Blanca Portillo, Rubén Ochandiano e Tamar Novas. Em cartaz.
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Uma resposta para Das vísceras coração

  1. Esse filme é incrível! Até escrevi uma redação sobre ele para a aula de francês, de tanto que gostei. 😉

    É muito bonita a forma como ele usa o roteiro e as personagens para fazer uma homenagem ao cinema e às pessoas que estão com ele nessa labuta.

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