Jornalistas negros recomendam livros, músicas e filmes



Maíra de Deus Brito, além de jornalista, é Mestra e Doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania pela Universidade de Brasília (UnB). Em 2018 lançou o livro Não. Ele não está. A obra apresenta histórias de mães negras que perderam os filhos, também negros e periféricos, de maneira brutal. A obra ainda discorre sobre temas correlatos e importantíssimos, por exemplo a necropolítica.




Quarto de despejo
Carolina Maria de Jesus





Um clássico que o Brasil demorou muito tempo para descobrir. A autora foi uma mulher favelada que impressionou o país na década de 1960 por escrever tão bem e ter tão pouca escolaridade.


Ela traz nesses escritos do Quarto de despejo o dia a a dia assustador que é morar numa favela, no meio do lixo, à margem de um Estado que não tá nem aí para gente preta e pobre.


Livro muito importante, traduzido para várias línguas. Mas só a partir dos últimos cinco anos o nosso país resolveu olhar para a Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977).




Becos da memória
Conceição Evaristo





Outra mulher negra, extremamente importante, que está viva. Apesar de ser uma ficção, este é um romance com muitos elementos reais. Ela fala de preconceito, de fome, de miséria, da sociedade brasileira… porque é importante a gente lembrar que no Brasil a pobreza tem cor. E ela mostra um pouco disso nessa obra.




Meio sol amarelo
Chimamanda Ngozi Adichie





Essa autora nigeriana é muito conhecida pelo livro Americanah, que também é brilhante. Essa outro dela, Meio sol amarelo, é extremamente doloroso, não é fácil de ler, mas muito bonito e potente.


Trata sobre uma guerra ocorrida na Nigéria, país de origem da Chimamanda, narrando a transformação desse território e das pessoas que moram nele. Baseado em fatos reais, a trama, que tem uma história de amor no meio, mostra muito como o caos coletivo acaba chegando no caos individual.




Eu, Tituba, bruxa negra de Salem
Maryse Condé





Autora brilhante, nasceu em Guadalupe, um dos territórios coloniais da França no Caribe. A Maryse narra a história dessa mulher negra que foi vista como bruxa. Só que na verdade a gente descobre que essa personagem, que não seguia os padrões, estava na verdade conectada com a natureza, sobretudo com sua ancestralidade.


Muitas de nós, mulheres negras, de religião de matriz africana, hoje seríamos consideradas bruxas, como foi a Tituba.




O corpo encantado das ruas
Luiz Antonio Simas





Minha última indicação é o livro de um homem branco de quem eu sou muito fã. O Luiz Antônio Simas é do Rio de Janeiro, mora na Tijuca, professor de História, escreve super bem, e é Ogã, cargo importante nos terreiros.


O trabalho dele versa muito sobre futebol, religiões de matriz africana. A rua é um outro tema, inclusive aqui, em que ele as observa com bastante cuidado. O Luiz fala da macumba que tá na encruzilhada, da devoção de São Jorge, sobretudo dos cariocas, das festas, da comida, da música, do samba.


Tem um trechinho que eu acho muito bacana: “Soltar pipa, jogar porrinha, fazer churrasco na esquina, sambar, jogar futebol, ir à missa, bater palma no terreiro, macerar plantas que curam, benzer quebranto, intuir as chuvas, lembrar os mortos, ler os livros, desfilar na avenida, temperar o feijão são formas de construir sociabilidades mundanas capazes de dar sentido à vida e reverenciar o tempo, instaurar a humanidade no meio da furiosa desumanização que nos assalta”.











Gabriela de Almeida é figura conhecida no cenário jornalístico brasiliense, principalmente no meio gastronômico, uma de suas paixões, ou ainda no cultural, onde começou ainda estagiária. Atualmente, estuda a mídia desbravando o novo, e perigoso, território das notícias falsas na internet, conhecidas pelo jargão “fake news”.




Você sabia que cada clique que você dá em uma música do seu artista favorito em seu canal oficial de streaming você faz com que ele receba uma grana por isso?


Em tempos de pandemia, com as agendas culturais – presenciais, cabe lembrar – paradas, poucos são os que conseguem se desenrolar financeiramente.


Valorize o seu artista favorito, dê play nas músicas deles, escute novamente álbuns antigos e abra o seu coração para novas sonoridades. Vou falar sobre cantores e cantoras negras incríveis que estão esperando seus cliques por aí.


De um som pop, recomendo Bia Ferreira, cuja música Cota não é esmola viralizou, é muito boa para esse momento, forte e significativa. Mahmundi é um tipo de som que curto demais. E também Luedji Luna.












No samba, duas cantoras de Brasília eu escuto sempre, Cris Pereira e Teresa Lopes. E também não pode faltar Teresa Cristina.












Das novidades, destaco que a Alcione, que lançou um disco agora em plena pandemia, Tijolo por tijolo, e o Jorge Aragão, que tem live em 19 de junho, saiu com a música Ninguém vale dor e despedida.









Ainda tem o Emicida, sempre importante, com falas muito políticas. Precisamos colocar ele num lugar de atenção, acompanhá-lo nas redes sociais… Aliás, todos os que citei.


Acho importante destacar que nos tempos atuais a arte e a política não se separam. Quem não se compromete não tem mais como viver artisticamente nesse país diante de tudo o que estamos vivendo.













Edson Caldeira ama músicas, filmes e estrelas de antigamente, sem nunca deixar de estar atento ao que há de mais novo. Com referências que vão de Dorothy Dandridge a Beyoncé, ele transita entre o ontem e o hoje, mas sempre de olho no amanhã. Criou em 2018 o site Edson Caldeira.com, em que atua também como editor-chefe. Trabalha ainda, com o talento que lhe é habitual, de maquiador.




Quando as nuvens passam1946
(Till the clouds roll by)





Filme produzido pela MGM para homenagear o compositor Jerome Kern, referência quando se fala da música do século XX. Na obra, a constelação de estrelas do estúdio se divide para contar a história do artista entre cenários suntuosos e muitas canções.


Lena Horne interpreta Julie LaVerne cantando Can’t help lovin’ dat man e Why was I born. No primeiro segmento da fita, a atriz divide os holofotes com Caleb Peterson, outro ator negro. Em um contraste com a suavidade vocal de Lena, Peterson solta a voz grave e aveludada na canção Ol’ man river, que narra a triste e injusta história de opressão dos trabalhadores afro-americanos.


Frank Sinatra canta a mesma canção ao final do filme e muitos atribuem isso à censura da época. Lugares como Memphis, no Tennessee, cortaram a participação de Lena Horne porque a união de brancos e negros em um filme ia contra “a moral e o bem-estar da cidade”.




Carmen Jones1954





Tem seu valor histórico por ser o primeiro filme mainstream a ter elenco totalmente negro. Baseada na ópera de Bizet, a história trágica mistura dramaticidade e bom-humor numa produção opulenta dirigida por Otto Preminger.


Apesar de todos os atores merecerem honrarias, Dorothy Dandridge, que interpreta a protagonista, certamente tem destaque por esbanjar sensualidade, energia e talento descomunal. Pelo papel, tornou-se a primeira afro-americana a ser indicada ao Oscar de Melhor Atriz.




O ocaso de uma estrela1972
(Lady sings the blues)





Inspirado na vida e obra de Billie Holiday, foi especialmente produzido para Diana Ross. Não sem controvérsias. Assim que foi anunciado, o filme já recebeu críticas pelas características supostamente destoantes entre a eterna Supreme e a voz mais consagrada do blues.


Entretanto, a película provou que Diana Ross não só era uma cantora fantástica, também revelara-se uma atriz promissora e idealizadora caprichosa. Os palpites da estrela sobre o guarda-roupa fizeram gravadora Motown, uma das encarregadas da produção, gastar uma nota.


Um dos fatores que torna o filme memorável é o desprendimento de Diana em mostrar uma cópia barata de Billie. Ao explorar o personagem à sua maneira ela ganhou aplausos dos críticos e, de quebra, uma indicação ao Oscar.




As barreiras do amor1992
(Love field)





Michelle Pfeiffer interpreta Lurene Hallett, dona de casa texana que idolatra Jacqueline Kennedy. Quando o presidente é assassinado, ela se solidariza com a dor da primeira-dama. Decide ir ao funeral em Washington. Presa em um casamento abusivo, a protagonista “desobedece” o marido, embarcando num ônibus para prestar suas condolências.


No caminho, conhece Paul Cater (Dennis Haysbert) e a filha pequena dele. Convencida pelo próprio preconceito de que o homem está sequestrando a menina, ela rapidamente percebe o engano. A partir daí a produção passa a contextualizar na narrativa racismo e movimento dos direitos civis no início dos anos 1960. Tudo isso com uma dose de romance sem afetação, o que deixa o filme ainda mais emocionante.




Dorothy Dandridge – O brilho de uma estrela1999
(Introducing Dorothy Dandridge)





A musa Dorothy Dandridge, protagonista do já citado Carmen Jones, é tema de cinebiografia extremamente intensa e reveladora, estrelada por Halle Berry. O filme narra a história trágica da estrela e o racismo na década de 1950. Em uma das cenas mais revoltantes, Dorothy, capa da renomada revista Life, não tem permissão para nadar em uma piscina de hotel em Las Vegas.


A trajetória da atriz possui questões delicadas e complexas, como o abuso sexual cometido pela amante da mãe e a morte por overdose aos 42 anos. No entanto, a produção mostra de modo responsável e digna como Dorothy recusou-se a desempenhar papéis estereotipados, além de como suas contribuições abriram as portas da inclusão para outros artistas negros.







Crédito das imagens: Janine Moraes, Amazon, EBC, Itaú Cultural, Saraiva, Medium, Twitter, Kobo, Revista Ópera, Divulgação, Bruno Pimentel, IMDb, Reelgood e House Creek Entertainment.

Filmes dos anos 90 na Netflix



Nunca neguei que sou saudosista. E digo mais: adoro um bom filme repetido. Por causa disso obviamente os anos 1990 têm lugar especial na minha memória afetiva. Afinal, foi naquela década, hoje quase balzaquiana, que descobri a magia do cinema gastando a mesada nas salas Severiano Ribeiro e transformando a videolocadora do bairro quase em minha segunda casa.


Agora, em pleno século XXI, quando dá vontade de rever alguma coisa daquela época, ao invés das fitas VHS me sobrou o streaming. Segue aqui uma listinha camarada em que enumero ótimas escolhas na Netflix para os nostálgicos como eu.




Ghost: Do outro lado da vida (1990)





A pessoa que acabava a lição de casa, abria aquele saco de Cheetos bola e tinha um filme desses na Sessão da tarde certamente não queria guerra com ninguém.


Ghost virou megasucesso por vários fatores: trama emocionante (moço de Dirty Dancing morre mas não desencarna), música da argila (Oooh my-yyyyyy loove), Whoopi Goldberg de médium picareta (“Molly, você está em perigo, garota“) e, aqui no Brasil, graças às infindáveis reprises (de tanto que passou virou até piada, “Inédito… nessa semana”). Ah, sim, a melhor maneira de assistir é, claro, na versão dublada.






Mulher solteira procura (1992)





Nos muito grunges anos 90, Bridget Fonda e Jennifer Jason Leigh eram habituês de qualquer revista SET – a primeira quase sempre no papel de mocinhas espertas, a outra certamente interpretando alguma doida de jogar pedra. Nesse filme também vale essa regra.


A super legal Allison precisa de uma colega de quarto. Daí conhece Hedra. Elas viram grandes companheiras até que o quê? Até que a nova amiga se revela uma pirada de marca maior. Obsessão, cabelo de cuia em dose dupla e a clássica cena do sapato de salto transformado em arma mortal completam esse subestimado suspense.






Entrevista com o vampiro (1994)





Juntar Tom Cruise e Brad Pitt, dois grandes gatinhos de toda uma geração, era o sonho de qualquer garota, ou primo gay, que lia a Capricho. Essa fita, baseada no livro de Anne Rice, que ainda assina o roteiro, realizou a proeza e ainda apresentou ao público Kirsten Dunst em versão vampirinha Natasha Lyonne.


Como mote, acompanhamos Lestat e Louis, dentuços amigos e rivais por entre os séculos. Christian Slater fica com o papel do jornalista que arranca confissões de um dos imortais: “No Brasil não há homem para mim”.






Pulp Fiction: Tempo de violência (1994)





Assisti à essa obra-prima ainda na mais tenra infância e até hoje não me esqueço da trilha sonora, que comprei numa unidade da Discoteca 2001, do picumã de Uma Thurman à la Maria de Fátima ou daquela famosa passagem de dança twist. Claro que esse novo clássico oferece muito mais do que isso, mas eu realmente só o entendi depois.


Fato é que Pulp Fiction consta como um dos melhores filmes da década, quiçá da História, dando a todos nós, jovens esquisitos ratos de locadora, a esperança de sermos, um dia, geniais que nem o Tarantino.






As patricinhas de Beverly Hills (1995)





A trama da jovem rica e esperta que acaba se apaixonando pelo meio-irmão. Podia ser uma tragédia grega, podia ser Jane Austen, mas ficou para a posteridade como cult do gênero “filme de adolescente”.


Esta produção, lançada em 1995, faz parte da época em que Alicia Silverstone era a grande promessa de Hollywood, quando ainda tínhamos nesse plano a saudosa Brittany Murphy, e ainda dos tempos em que Paul Rudd tinha a mesma cara que tem hoje, que Renew é esse?






Seven: Os sete crimes capitais (1995)





Quando quase tomei bomba em algumas matérias da escola, fui tomar reforço, e escapar das chineladas, com uma professora particular aqui da vizinhança. Para minha sorte, além de tutora ela também era cinéfila. Foi daquele vasto acervo que peguei emprestado a fita de Seven, imaginando ser um thriller como outros daqueles descartáveis. Bem… Não era.


A trama dos dois detetives que perseguem um assassino movido pelos sete pecados capitais nunca mais saiu da minha cabeça. O motivo? Digamos que nos anos 90 o conceito de unboxing era algo bem diferente.






Missão impossível (1996)





“Não é porque estou em isolamento que não valorizo meu tempo” pode ser considerado meu novo bordão. Então poupe-se da série completa com 80 continuações, veja só esse, o primeiro, e vida que segue. Na aventura de estreia do espião Ethan Hunt na telona, ele deve tentar resolver o mistério que matou sua equipe, salvando assim a própria pele.


Dirigido por Brian De Palma, um favorito da minha videoteca, o Missão impossível número 1 vale nem que seja para aquela sequência do Tom Cruise flutuando no cofre e tan, tan, tan, taran, taran, tan, tan, tchuruuuuuuuu, tchururuuuuuuu, tcharam.






Jovens bruxas (1996)





Que atire o primeiro pentagrama qual jovem dos anos 90 não desejou ter poderes ocultos. A razão, além de Elvira, Convenção das bruxas e Abracadabra, é provavelmente este filme, em especial a cena onde descobrimos que, com mágica, dá para ficar loiro de repente. E sem amônia.


Vamos ao enredo: quatro adolescentes não-tão-bem-quistas mexem com o oculto enquanto enfrentam a chatice do Ensino Médio. Quanto a mim, meus grandes feitos como Fairuza Balk do Cerrado resumiram-se a beber ponche de vinho Periquita embaixo do bloco ouvindo o tema de Charmed. Sorry, Manon.






Matilda (1996)





O filme mais exibido da TV a cabo aos domingos conta uma historinha muito da simpática. Menina prodígio, incompreendida pelos pais bobalhões, enfrenta as dificuldades da vida de quem sabe mais do que a média com a ajuda dos livros e da professora que parece, mas não é a Sarah Paulson.


Uma dica: não assista devorando um bolo de chocolate (entenda o motivo assistindo).






A múmia (1999)





Sendo um grande fã do episódio do Chapolin passado no Egito eu adorei esse filme, que de profundo não tem nada. Na terra dos faraós, aventureiro encontra egiptóloga e parte, junto de uma turma em busca das maiores confusões, para resolver um mistério milenar.


Vi no cinema, talvez back to back com Armadilha, aproveitando depois para comprar um CD do Garbage e/ou das Destiny’s Child. De qualquer forma, um dia feliz/que tempo bom.






Crédito das imagens: New On Netflix: NEWS, Mercado Livre e Pinterest.

Minissérie “The ABC murders” não faz jus à obra de Agatha Christie



Adaptar um livro, ou seja, traduzir todas as minúcias de uma obra para qualquer roteiro que seja, é tarefa ingrata. Mesmo assim, existem exemplos felizes e outros menos afortunados deste gênero. Em cartaz na Globoplay, The ABC murders, com direção do brasileiro Alex Gabassi, infelizmente entra na segunda categoria.


Baseada em Os crimes ABC, de Agatha Christie, a minissérie de três episódios não honra o volume em questão, mesmo possuindo enredo recheado de elementos que os fãs da autora adoram: assassinatos elaborados, mistérios que viajam de trem e o maior deles, Hercule Poirot. O programa apresenta a trama de diferentes execuções seguindo disposição alfabética. O criminoso antecipa seus planos obscuros, em cartas, a um dos mais famosos investigadores do mundo, nosso querido detetive, assinando sempre com as primeiras letras do abecedário.


Essa mesma ordem também aparece nos nomes das vítimas, nas cidades inglesas onde elas aparecem, Andover, Bexhill-on-Sea, Churston, e ainda relacionam-se aos guias ferroviários tipo ABC sempre deixados ao lado dos corpos. Em termos de enredo, livro e série andam de mãos dadas. Entretanto, o diabo está nos detalhes.





Para começar, confesso que admiro algumas intenções. A exemplo desta. Ambientada em 1933, a narrativa relaciona as turbulências políticas do período, por exemplo um levante nacionalista contra estrangeiros, algo dispensado na obra publicada em 1936. O tema volta a dar as caras durante toda a trama, fazendo a relação entre passado e presente ficar oportunamente bem clara – a minissérie foi exibida pela BBC One em dezembro de 2018, ainda em meio ao imbróglio de oficialização do Brexit (o movimento anti-imigração é uma das discussões relacionadas ao assunto). A sacada é raro ponto positivo no geral.


O grande pecado de The ABC murders é um clima demasiadamente soturno, pesado, que se sobrepõe ao suspense do enredo. Essa atmosfera não combina em nada com a bibliografia de Agatha Christie, especialista em tratar os casos mais sangrentos de maneira até pueril. Talvez a produção tenha caído na tentação de modernizar demais a história, assim como o fez Kenneth Branagh em sua recente adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente, acometida ainda por um excesso de pirotecnia dispensável.


Neste mesmo tópico, causam desconforto alguns toques vulgares nada dignos do universo retratado pela elegante inglesa. Insinuações sexuais e palavrões sem propósito, um crime envolto em urina e até uma piadinha com hemorroidas acabam empobrecendo os capítulos. Outro ponto também não se revela bem sucedido, a desconstrução dos tipos literários. Hercule Poirot ganha tons sombrios com a escalação de John Malkovich, notadamente diferente dos tipos meio bonachões, até cômicos, aos quais estávamos acostumados em outras versões, por exemplo Albert Finney, Peter Ustinov e David Suchet.





Sarah Phelps, roteirista da empreitada e de outras adaptações da autora para a TV (Testemunha de acusação, E não sobrou nenhum, O cavalo amarelo), propõe ainda uma licença poética absolutamente inverossímil: a decadência do detetive belga, mostrado como uma alma atormentada, cheia de segredos, desacreditada até mesmo pela Scotland Yard. Por mais admirável que seja a ousadia derivada disto, a criação de uma história pregressa com virada surpreendente para Poirot, isso distancia-o ainda mais da figura a quem conhecemos na literatura como ídolo nacional, dono de senso de humor peculiar.


Contribui ainda para o malogro da experiência um grande desvirtuamento dos outros personagens, que o diga o Crome de Rupert Grint, praticamente um Lucas Silva e Silva vestido de adulto, Thora Grey (Freya Mavor) em versão vilã de novela mexicana ou ainda uma Megan Barnard (Bronwyn James) mais passada do que roupa de lavanderia. Isso sem mencionar o sumiço do narrador original, o inspetor Hastings, recorrente no acervo da escritora.


The ABC murders pode até agradar quem não leu o livro. Mas, para os fãs de Agatha Christie, provavelmente será visto como uma frustrada tentativa de transformar Downton Abbey em Seven.






Crédito das imagens: Provas de Contacto, Pinterest e NiT.