Como as democracias morrem



Há quem diga que o destino da humanidade está traçado desde o início dos tempos, o que nunca impediu de nos questionarmos de tempos em tempos: e se algo tivesse sido diferente?


Imaginar realidades alternativas não é novidade nem na vida real, nem na ficção. No entanto, a construção de alguns enredos do gênero, de preferência se capitaneados por alguém talentoso, rende muitas boas histórias, algumas até bem plausíveis. Aqui trato sobre uma delas, o livro de Philip Roth Complô contra a América.


E se em 1940 Roosevelt não fosse reeleito presidente dos EUA e no lugar dele tomasse posse o aviador e notório simpatizante nazista Charles Lindbergh? Um Philip ficcional assume seu alter ego criança para narrar algo que nunca aconteceu. Nesse meio de campo, assim como Carlos Heitor Cony fez em Quase memória, que também li recentemente, não vemos muito bem a linha entre realidade e ficção, não muito mais do que nos ensinam os livros de História, digo. Assim como no plano verdadeiro, a família Roth, composta pelo pai Herman, a mãe Bess e os irmãos Philip e Sandy, mora numa casa na Summit Avenue, em Newark, Nova Jersey, em pleno início dos anos 1940. Eles também são judeus.





Após dois mandatos bem sucedidos, o então presidente Franklin Delano Roosevelt começa a perder popularidade quando apoia a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial e, assim, faz crescer a possibilidade de envolvimento dos EUA no conflito (como se sabe, isso só aconteceu após o ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941). Enquanto isso, Charles Lindbergh, aviador de trajetória tanto célebre, foi primeiro a atravessar o Atlântico sem escalas, quanto trágica, teve o filho bebê sequestrado e assassinado anos antes, reúne simpatizantes ao mostrar-se contra a entrada do país em um alarmante conflito bélico.


A possível ligação do piloto com Hitler e o partido nazista amedrontava os judeus, também a família Roth, que observa esses temores pouco a pouco se confirmarem com a vitória de “Lindy”, já aclamado até mesmo por praticantes da religião. O leitor começa aí a experimentar uma sensação de tragédia anunciada se escalonar com maestria. Não chega a ser um suspense, faltam os clichês do gênero, mas o medo é muito real, perpassa pelas páginas. Os Estados Unidos, a tão famosa terra da liberdade, poderiam mimetizar a Alemanha nazista?


Nessa minha primeira incursão no trabalho de Philip Roth, me chamou atenção o apuro descritivo que quase nunca chega a ser enfadonho. Ele nos apresenta esse cenário meio real, meio paralelo, incluindo como pano de fundo um outro tema recorrente da literatura: a perda da inocência. No livro, o garoto Philip descobre que o mundo adulto é cruel, abandonando seu papel de criança comum, brincando nas ruas, para testemunhar os nefastos ecos do fascismo em sua família e na comunidade. Esperto e observador, como as crianças normalmente o são, esse “menino” também usa de algum sarcasmo na sua inata linguagem poética.





Se na literatura senti ter entrado em contato com algo brilhante, não posso falar o mesmo da adaptação televisiva que assisti em seguida. Nos seis episódios da minissérie, lançada no início deste ano, toda a sutileza e genialidade da obra de Roth são substituídas por um excesso de didatismo. E não só isso. O texto é repetitivo, reiterativo, o elenco mal escalado, as atuações ruins (menos a do menino Seldon).


Para não ser muito ranzinza, aplaudo a reconstituição de época e figurino, de fato atenciosos. Só que ainda acho chocante que esse produto, muito aquém do livro em que foi baseado, tenha ganhado a tarimba da HBO e dos produtores de The wire. Enfim, dificuldades à parte, o enredo está lá. Sutil que nem um elefante numa loja de cristais, mas está.





De qualquer forma, seja pelo livro maravilhoso ou pela série meia-boca, ao final o efeito de rebordosa é inevitável. Quando o mundo lá fora se parece mais com a ficção do que poderíamos imaginar, chega a hora de pensarmos com nossos botões: e se… já estiver acontecendo?




Crédito das imagens: HBO Portugal, Amazon e Pinterest.

5 coisas que eu não aguento mais na TV a cabo



Sendo uma das últimas sete pessoas em isolamento no país e, por força das circunstâncias, evitando os noticiários no alienante processo finaestamping myself to oblivion, tenho na TV por assinatura um apoio da maior importância na rotina atual aqui de casa.


Acho que nunca assisti tanto a esse serviço desde que virei assinante, talvez só na época que tinha HBO e MTV Latina na TVA. Também faço uso do streaming, mas existe um fator reconfortante ao apertar o controle e simplesmente assistir o que está passando (a recente iniciativa da Netflix para isso me dá razão).


Mesmo compreendendo essa época maluca e a consequente confusão que mexeu na programação de vários canais, não posso deixar de notar algumas tendências, dentre as quais algumas que simplesmente não aguento mais. Esse texto vem mostrá-las a vocês com humor, viu, gente? Até porque eu falo mal, mas pago pau, vejo todo dia.




Reformas


Acredito que, em breve, os EUA e o Canadá atingirão o índice de 100% de suas propriedades completamente renovadas com conceito aberto e ilha de granito na cozinha. Só pode. Nunca se reformou tanto na televisão.


Os irmãos à obra, por exemplo, já contei uns três programas, o normal, o de compra e venda e agora o com famosos. Tem aquele também das ruivas mãe e filha, a mais velha ri até de gol contra. Ainda temos as mansões alucinantes, casas exóticas, um que refaz tudo e o outro vende em Vancouver…





O pior é aguentar os candidatos que vivem não só em outro país, mas em outro MUNDO, com suas conversas sem pé nem cabeça naquela voz dublada, “Esse lugar é um buraco, não acredito que não teremos nossos 12 quartos de hóspedes com suíte, é impossível se movimentar aqui, é tudo tão apertado, a casa tem apenas 316m² e com tão pouco dinheiro não acho que vamos conseguir o que queremos com apenas 3 milhões de dólares de orçamento“.


Aí dá o comercial e passa o quê? Os Médicos Sem Fronteiras com problemas reais ao som de Everybody hurts ou Coldplay. Não dá, gente. O mundo acabando e o outro lá em Toronto preocupado se a churrasqueira dele vai caber no quintal.




Alasca


Acho que perdi o momento em que o ALASCA virou o território favorito da TV por assinatura. Assim, nada contra, deve ser muito bonito e tal, uns belos cenários, uma história ótima.


Mas um tempo desses eu tava passando e tinha um canal com, sei lá, Alasca selvagem. Ok. Lá na frente, Alasca desbravada. Hum. Beleza. Dois outros em seguida, Desespero no Alasca. Peraí, minha gente. Tava barata a passagem? Fizeram convênio? É jabá?





O mundo DESSE TAMANHO e três canais só sabem falar desse estado americano? Isso sem contar o Alasca em cores e Alasca visto de cima.


Até agora eu achava que a Alasca mais famosa do mundo era aquela drag de RuPaul. Bom, vivendo e aprendendo.




Homem na Lua


Compreensível que a primeira ida do homem à Lua tenha rendido ótimos especiais desde 2019, que comemorou os 50 anos do evento. O que não dá para entender é o motivo deles estarem passando até hoje.





Todo dia, em pelo menos um canal, eu dou de cara com a história completa da conquista do espaço, é Sputnik, é a coitada da Laika, Gagarin, Kennedy, Cabo Canaveral, é pau, é pedra, é o fim do caminho, é o Aldrin, é o Armstrong e é o Collins, os imprevistos, entrevistas com filho, mulher, papagaio, muito suspense, será que eles vão conseguir?, oh, céus.


E pior: mesmo sabendo o resultado, tô eu lá vidrado pra saber se eles conseguiram voltar em segurança. Mais de cinquenta anos depois.


É a Terra plana da TV a cabo.




Máquinas


Talvez eu esteja zapeando por canais errados, principalmente quando, aos domingos, fujo das 26 exibições de Matilda. Só que tenho a impressão de que pelo menos uma vez por dia eu também preciso fugir dos especiais sobre como funcionam certas coisas que certamente só interessam a um grupo muito pequeno de pessoas.





Por onde andam aqueles documentários sobre a importância das abelhas? Os especiais de crimes clássicos? Aqueles que recontam algum período com reconstituições que parecem de trabalho escolar? Os faraós do Egito? Mitos gregos?


Parece que eles foram substituídos por “Passe uma hora vendo o motor do Boeing 751” ou “Como funciona a roda daquele trem que vai de uma cidade grande pra uma que é só mato?”.


E eu, que não sei nem andar de bicicleta, tenho que gastar ainda mais a pilha do meu controle remoto.




Comida


Se existe um canal que tornou minha experiência com a TV ainda mais prazerosa, esse canal é o Food Network. Eu poderia passar o dia inteiro assistindo ao brunch do Bobby Flay, a Ina voltar ao básico e a Giada na Itália. Isso sem contar o Chopped que, por mim, teria um número só dele na lista da NET com episódios seguidos 24/7.


O problema, além da dificuldade de achar half and half no Brasil, é a repetição exagerada, algo que ocorre em vários outros canais. Gente, sete vezes por semana, duas vezes por dia, nem a Fernanda Lima aguenta o Rodrigo Hilbert, vamos combinar.





Sugestão. Por que não usar mais dos enormes acervos e parar de insistir na repetição dos programas mais recentes? Tem dias que eu acho que se assistir a Rita Lobo fazer mais um soro mágico pro frango ou aquele homem tacar alguma coisa na brasa, um alecrim, uma pizza, um sapato, seria capaz de assar meu próprio aparelho de televisão no forno já pré-aquecido a 180º.


Receitas, sim! Reprises? Menos.




Crédito das imagens: Talon News, Istoé, UOL Notícias, Revista Galileu, Aeroflap e ES Brasil.

Filmado em casa, “Diário de um confinado” trata o isolamento com bom humor, tratamento profissional e elenco estelar



A pandemia de Covid-19 exigiu medidas drásticas em todos os setores, até mesmo no entretenimento. De súbito, as emissoras de TV, inclusive as brasileiras, tiveram de se adaptar. Começaram aí as reprises e a perspectiva de conteúdo inédito parecia adiada por tempo indeterminado. Mas, como diz o ditado, o show não deve parar.


Em tempo recorde e com qualidade excepcional, a Globo exibiu a comédia Diário de um confinado. O capítulo final foi ontem, sábado (25/7). A íntegra está disponível no Globoplay, além do Multishow, tanto no Globosat Play quanto no NOW.


Abordar um período tão conturbado, para dizer o mínimo, em outros tempos talvez exigiria mais distanciamento. Não em 2020. O ator e roteirista Bruno Mazzeo, em conjunto com a esposa, a diretora artística Joana Labace, conseguiu entregar quatro episódios de meia hora (nas plataformas de streaming eles são 12, cada um com 10 minutos) que tratam a quarentena com bom humor e leveza, um alívio para o telespectador cercado quase exclusivamente das más notícias do mundo real. Filmado na própria casa deles, o programa é de um refinamento impecável, nada amador, quase como se tivesse sido gravado em estúdio.





Mazzeo vive Murilo, um homem enfrentando sozinho o isolamento social em seu amplo apartamento no Rio de Janeiro. As boas surpresas começam com as participações especiais. Logo conhecemos Adelaide, vivida por Débora Bloch, a neurótica vizinha de apartamento do solteirão. Aliás, neurose ali é mato. A mãe do protagonista, Renata Sorrah, é outra piradinha: ela aparece em vídeo chamadas sempre desesperada, muitas vezes espalhando fake news.


Fernanda Torres interpreta a terapeuta constantemente interrompida pelo filho nas reuniões on-line com o paciente. Temos ainda participações de Lázaro Ramos, no papel do médico de Murilo, Marcos Caruso como o síndico, entre outros nomes de destaque em participações divertidas.





O pacote “pandemia e isolamento” está todo lá nesse Diário de um confinado, fruto de roteiro ágil e inteligente. Assim como muitos de nós, acompanhados ou não nesta quarentena, o personagem de Murilo passa por todos os estágios possíveis, negação, raiva, aceitação, paranoia com encomendas vindas da rua, vício em álcool gel e irritação com cantorias de vizinhos.




A verossimilhança só sofre um rápido golpe rapidamente ao percebermos que esse homem com mais de 40 anos não sabe nem limpar a própria casa (mas imagino que seja assim mesmo no universo hétero de classe média). Essa talvez seja a única ressalva que eu faço em relação à série. Isso e o fato da música-tema ser repetida em demasia. Mas ok, nada que atrapalhe a experiência.


Mesmo às vezes um pouquinho white people’s problems, a trama cumpre o propósito de divertir, nos fazendo esquecer dos nossos próprios problemas em meio ao caos em que estamos vivendo. Pelo menos em algum momento da quarentena, nós todos fomos um pouco esse Murilo. E quando eu quase chorei com a cena final percebi que, agora, sou eu que estou mais Murilo do que nunca.







Crédito das imagens: Globoplay, Glauco Firpo (Gshow), Gshow e Liberal.